terça-feira, 26 de julho de 2011

O que é endometriose?

Você já ouviu falar em endometriose?
Essa doença ginecológica acomete cerca de 15% das mulheres, mas nos casos de infertilidade ou dor pélvica, pode estar presente em até 70%. Muitas vezes o diagnóstico é difícil e pode levar anos para acontecer. Muitas mulheres tem endometriose e não sabem.




O endométrio é o tecido que reveste o interior do útero. É ele que se descama num determinado momento do ciclo menstrual e sangra (menstruação). É nele que o embrião se prende para se desenvolver após a fecundação.

A Endometriose ocorre quando células do endométrio se instalam em outros lugares que não o interior do útero. Pode haver tecido endometriótico nos ovários, trompas, no tecido que reveste o útero por fora (peritônio), nos ligamentos pélvicos, na bexiga, intestino, e em qualquer parte do abdome, inclusive em órgãos distantes como a pele, pulmões, olhos, etc, estes são mais raros (ainda bem, né?).

Existem muitas teorias para explicar como a endometriose acontece. O avanço da medicina já nos permite uma abordagem melhor da doença, mas ainda tem muita coisa que precisamos descobrir. Para vocês entenderem melhor, vou explicar a teoria mais compreensiva: a menstruação retrógrada. Todo mês quando a mulher menstrua, parte do sangue que se forma no interior do útero (fruto da descamação do endométrio) sai pela vagina e uma pequena parte vai para o abdome, passando por dentro das trompas. Na ausência de uma defesa imunológica adequada estas células endometriais podem se desenvolver nos locais onde se implanta formando nódulos pequenininhos ou maiores, aderências (quando os órgãos se grudam uns aos outros), obstrução de trompas...e isso vai acontecendo aos pouquinhos desde a época em que menstruamos pela primeira vez. Esse processo é lento, pode ser silencioso ou apresentar sintomas leves ou intensos e é progressivo, se não fizermos nada para interromper sua evolução. Entenderam? é como um vulcão que entra em erupção todo os meses, por onde passam as lavras elas podem ir se acumulando e formando pequenos focos, nódulos, obstrução das trompas, etc. Todo mês deposita um pouquinho até a instalação de endometriose. Mas lembrem-se! isso não acontece com todo mundo. Uma série de fatores imunológicos, genéticos, ambientais, estão envolvidos.
aderências e focos de endometriose
A importância desta doença está no fato de poder atingir todos os setores da vida de uma mulher. Ela pode prejudicar a qualidade de vida e até provocar infertilidade, ter problemas no trabalho, na vida social e conjugal. É claro que nem todo mundo tem os mesmos sintomas, pois isto depende do grau da doença. Muitas mulheres tem endometriose e nunca foram inférteis, outras não sofrem com cólicas. Porém, os sintomas mais comuns são de dor pélvica (cólica menstrual, dor na relação sexual, dor na região inferior do abdome fora do período menstrual, dor para evacuar), menstruação intensa, sangramentos fora do período menstrual e infertilidade. A endometriose é uma doença crônica que deve ser tratada permanentemente. Sem tratamento os sintomas vão se tornando cada vez mais intensos.

Exceto quando a endometriose é diagnosticada por acaso (pacientes  sem diagnóstico prévio e que são submetidas a uma cirurgia pélvica qualquer, como a cesariana, ou durante um exame de imagem de rotina), nós desconfiamos de endometriose quando a paciente apresenta cólicas intensas que estão piorando ao longo do tempo, e que não melhoram facilmente com medicações apropriadas e que, às vezes, precisam ir até uma emergência tomar injeção para a dor melhorar. Não é aquela cólica que a pessoa nem toma remédio para passar ou que melhora com analgésicos como "buscopan, tylenol, novalgina, atroveran". É a cólica que te deixa em casa no dia que você mais queria ir naquela festa maravilhosa ou que faz você faltar o trabalho. Cólica que não melhora com anti-inflamatórios (medicações adequadas para aliviar as cólicas). Também quando a paciente está há mais de 1 ano tentando engravidar e não consegue, investigamos endometriose.

O exame clínico da pelve, a ultrassonografia transvaginal, a ressonância magnética de pelve e a dosagem de  CA 125 (detectado no sangue) podem fazer o diagnóstico em alguns casos, mas em outros, podem estar normais e mesmo assim a pessoa ter endometriose. O diagnóstico definitivo acaba sendo através de uma cirurgia chamada Video-Laparoscopia, que identifica os focos sob visão direta. Mesmo assim, alguns casos de endometriose retroperitoneal podem passar desapercebidos na cirurgia, dependendo da experiência do cirurgião ou pela falta de suspeita clínica prévia. A video-Laparoscopia, além de fechar o diagnóstico também auxilia no seu tratamento, retirando os focos, nódulos e liberando aderências.
Video-Laparoscopia

O tratamento da endometriose pode ser através de medicamentos hormonais e cirurgia. Não há cura, portanto, o tratamento é individualizado. Escolher qual o tratamento clínico dentro das opções existentes e qual a estratégia cirúrgica a ser adotada, depende do objetivo para cada paciente.

Já entendemos que a endometriose vai se instalando devido às menstruações, certo? assim fica fácil entender que não menstruar seria o ideal para quem tem endometriose. Podemos não menstruar devido ao uso de anticoncepcional sem pausa, ao uso de outros medicamentos hormonais mais potentes que são usados temporariamente (pré ou pós cirúrgico) ou através de cirurgia.

Com a dificuldade do diagnóstico, é comum iniciarmos anticoncepcional sem pausa nas pacientes em que suspeitamos de endometriose e que não pretendem engravidar logo. Ela vai usando enquanto estiver dando certo, até resolver engravidar ou até quando houver necessidade de cirurgia. Protegida da progressão da doença ela pode ter evitado a infertilidade. A cirurgia fica reservada para os casos de dor pélvica que persistem com o tratamento medicamentoso, ou quando o exame clínico ou de imagem consegue fazer o diagnóstico, ou quando há infertilidade. A cirurgia pode ser conservadora (para quem pretende engravidar) ou para a retirada do útero e ovários. Tudo depende da idade, do futuro fértil, das manifestações clínicas, e deve ser conversado com a paciente, individualizando os casos.

Há mulheres com endometriose que ficam bem só usando anticoncepcional contínuo, algumas que precisam de hormônios específicos e de laparoscopia, outras só engravidam com fertilização in vitro, outras precisam fazer a cirurgia de retirada do útero e ovários e há aquelas que engravidam espontaneamente, que não sofrem com os sintomas e que não desenvolvem infertilidade. Continuando, dependendo da gravidade, há situações em que a mulher necessita de acompanhamento psicológico, psiquiátrico, e da clínica da dor. Algumas cirurgias necessitam da participação de cirurgiões gerais especializados em endometriose, proctologistas ou urologistas.

O fato é que endometriose é uma doença muito complexa e não podemos mais perder o momento de iniciar o tratamento. Não dá mais para recebermos pacientes com cólicas progressivas e incapacitantes que começaram no início da vida menstrual sem tratamento até hoje, aos 20-30 anos.

Por isso, se você sofre de cólicas intensas, que não melhoram facilmente com medicação, que estão piorando, não deixe o tempo passar, procure seu ginecologista para iniciar logo o tratamento. A endometriose começa na adolescência, quando começamos a menstruar e não tem cura. Quanto mais cedo você iniciar o tratamento, você pode conseguir impedir a evolução da doença e proteger a sua fertilidade, além de garantir qualidade de vida.

Abaixo selecionei 3 diferentes imagens de endometriose do meu arquivo pessoal.

foco de endometriose peritoneal

endometrioma de ovário / líquido achocolatado


implantes endometrióticos em parede posterior do útero

Para divulgar: acesse o portal da endometriose (endereço lá na lista de sites de saúde). Lá você encontra perguntas e respostas, vê onde se localizam os serviços públicos de referência em todo o país e, se seu médico lhe prescreveu uso de análogos (tratamento hormonal) você também fica sabendo como fazer para conseguir as medicações pelo SUS.

Bom, já havia prometido este post há um tempo. Endometriose envolve muitos detalhes. Tentei simplificar e esclarecer pra vocês as principais dúvidas.
Um beijo!





6 comentários:

  1. Adorei essa matéria do blog!
    Acabei de descobrir que tenho endometrioma e estou fazendo os exames necessarios para o diagnóstico e tratamento.
    Meu médico havia me explicado muitas questões e outras dúvidas foram esclarecidas aqui.

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  2. Que bom! esse é o resultado que espero do blog! muito legal esse retorno. Obrigada!

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    1. Ola Dra. Fernana,me chamo Ellen e tenho 22 anos,e comecei a ter problemas aos 17 ,ja fui em varios ginecologistas pois sinto muitas dores ,antes ,durante ,depois do período mestrual , fluxo intenso ,nao tenho data certa para mestruar vem quando quer ,ja usei ums 4 anticoncepcional e nehum da resultado o ultimo foi um tratamento de 3 meses e os 3 meses eu mestruei fiz ressonancia deu que tenho endometriose atraz da parede do utero ,o ultimo ginecologista q fui me passo videohisteroscopia diagnostica ,mas disse que preciso operar mesmo estou com medo pois sou alegica a todos os medicamentos entao sofro bastante pois nao tomo nada para dor apenas chas q minha vo inventa .

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  3. Boa Noite Dra Fernana! Meu nome é Karla e moro em uma cidade no interior de MG, depois de tanto sofrimento desde a primeira menstruação, e após ter passado por vários médicos, fui a uma capital e passei por uma consulta com um ginecologista aos 20 anos de idade e fui diagnosticada com endometriose, que porém já estava num estágio avançado apresentando aderência de alguns órgãos. No mesmo ano fui submetida a uma vídeo, que também evidenciou adenomiose e dois micromiomas. Após o procedimento cirúrgico segui as orientações médicas, retornei a minha cidade em MG, e agora preciso de ajuda; faço uso do cerazette, que não esta me ajudando muito, estou sentindo novamente fortes cólicas, e sangramentos muito irregulares, tenho deficiência genétca dos fatores 5 e 7 da coagulação sanguínea, e já fiz diversas tentativas com médicos diferentes, na tentativa de regular estes sangramentos, atualmente a dor nem tem tanta significância, dada a importância de ser casada e satisfazer meus desejos sexuais e principalmete do meu marido, a dor no ato sexual é recompensada em saber que tenho um mario compreensivo e que me ama... Mas, até quando passarei somente uma semana ou até menos no mês sem sangrar!!!

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  4. Ola Dra. Fernana,me chamo Ellen e tenho 22 anos,e comecei a ter problemas aos 17 ,ja fui em varios ginecologistas pois sinto muitas dores ,antes ,durante ,depois do período mestrual , fluxo intenso ,nao tenho data certa para mestruar vem quando quer ,ja usei ums 4 anticoncepcional e nehum da resultado o ultimo foi um tratamento de 3 meses e os 3 meses eu mestruei fiz ressonancia deu que tenho endometriose atraz da parede do utero ,o ultimo ginecologista q fui me passo videohisteroscopia diagnostica ,mas disse que preciso operar mesmo estou com medo pois sou alegica a todos os medicamentos entao sofro bastante pois nao tomo nada para dor apenas chas q minha vo inventa .

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  5. Dra preciso de ajuda, fiz uma histerossalpingografia a 6 dias e estou com uma cólica insuportável do lado direito na parte de baixo da barriga, onde no resultado do exame deu contratação na trompa direita. Esta difícil de andar de tanta cólica apenas do lado direito. Obrigada!

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