sexta-feira, 24 de junho de 2011

Gestação em idade avançada

Antigamente as mulheres engravidavam cedo. Cedo para nós, que hoje em dia pensamos em nos formar, trabalhar, comprar o AP e só então, pensar em engravidar.  Quando a minha mãe teve o meu irmão (que é mais velho que eu 1 ano e 7 meses) ela tinha 30 anos e era considerada "primípara idosa". Imaginem eu que vou fazer 34 e nem comecei... eu quero ser mãe, mas ainda não tenho previsão para o momento ideal. Para muitas pessoas ter um filho é simples, mas para outras envolve muitas coisas. Tem mulher que engravida sem planejar, outras consideram dispensável um relacionamento sólido, outras não se prendem às questões financeiras. Eu queria ser assim. Eu acho que eu queria ser assim. Diariamente me perguntam se já tenho filhos. "-não, ainda não" e continuam "-mas por que?". Fico sem resposta. Cada um tem seu tempo. Mas o tempo está passando.


Toda mulher deve ter o direito de escolher o número de filhos que deseja e decidir o momento mais oportuno para ser mãe. A gestação em idade avançada tem ocorrido com maior freqüência no mundo moderno, onde a mulher decide ser mãe após alcançar sucesso profissional e sua independência financeira. O avanço da medicina contribui muitas vezes  para a tomada desta decisão, porém o papel do médico é importante para informar os riscos envolvidos, tanto para a mãe, quanto para o feto. 

A gestação da mulher avançada é uma gestação que inspira cuidados. Com a idade, podemos adquirir algumas doenças crônicas, inclusive com risco de perda de órgãos essenciais para a gestação, como os ovários e o próprio útero. Mesmo que a mulher seja saudável, durante a gestação há o risco de desenvolver hipertensão (que é a maior causa de morte materna e fetal), diabetes, abortamentos, disturbios da placenta, como a placenta prévia, descolamento prematuro de placenta, amniorrexe prematura (quando a bolsa d`água rompe antes do trabalho de parto) e de ter bebês com malformações congênitas.  Também aumentam a incidência de retardo no crescimento fetal, recém-nascido de baixo peso,  prematuridade e  sofrimento fetal agudo.

A medicina nos tem proporcionado um aumento na expectativa de vida. Nós estamos vivendo por mais tempo (e usando mais remédios) mas nosso período de vida reprodutiva continuará sendo o mesmo. A mulher não produz óvulos como os homens produzem espermatozóides. Quando nascemos, temos cerca de 2 milhões de óvulos. Na puberdade, temos 400 mil. A perda de óvulos é contínua, se acentua após 20 anos e declina substancialmente aos 35 anos. Aos 37 anos temos cerca de 25 mil óvulos. Na menopausa (data da última menstruação na vida da mulher, término da idade reprodutiva) já não temos nenhum óvulo.  A conseqüência disso é que, além de alguns riscos durante a gravidez a mulher também pode ter dificuldades para engravidar. Segundo o Colégio Americano de Reprodução, acima de 30 anos, 1/3 das mulheres tem dificuldade para engravidar, acima de 40 anos essa taxa sobe para 2/3.

Frente a esses dados, espera-se que a mulher de 30 anos engravide espontaneamente dentro de 2 anos. Entre 30-40 anos aguardamos 1 ano para engravidar. Acima de 40 anos, 6 meses. 


É aí que entra a maior contribuição da medicina para esses casos: as técnicas de reprodução assistida. Entretanto, a taxa de gestação por fertilização in vitro  (FIV) na mulher de 30 anos é de 45-50%. Entre 34-37 anos é de 30-40%. Entre 38-40 anos cai para 20-25%. Acima de 40 anos cai para 10-15% (dados do fórum de reprodução humana, junho/2011). A chance de engravidar aos 40 anos é maior quando se faz a fertilização com óvulos doados por uma outra mulher. Outra saída é a barriga de aluguel, hoje permitida em nosso país. 


É claro vocês conhecem inúmeros casos de gestações acima de 35 - 40 anos que deram certo. Na gestação com mais de 35 anos podemos ter intercorrências que nos preocupam, mas que muitas vezes tem um desfecho satisfatório, porém isso não é absoluto. Falar em óbito fetal ou materno nos dias de hoje é um choque, mas ainda é uma realidade que não pode ser ignorada. 

Eu não desencorajo uma mulher que está com 40 anos e quer ter seu primeiro filho. Não mesmo. Mas se ela tem menos idade eu desejo que ela engravide logo. Minha cunhada se coloca sempre com um exemplo disso. Eu a conheci com 35 anos. Quando decidiu ter o João Guilherme aos 39, ela já sabia a minha opinião a respeito. Foi um pré-natal tranqüilo, tanto pra mim quanto pra ela. Nas semanas finais precisei antecipar o parto em poucos dias devido a insuficiência placentária que fez com que o João nascesse com baixo peso. Ainda bem que correu tudo bem e ele não precisou de nenhum cuidado especial ao nascer. É o sobrinho mais lindo que uma tia pode ter. 


Esses são a Fernanda e o João, há 1 ano e 9 meses
Por fim, para reduzir riscos, o ideal seria que toda mulher planejasse a gestação para receber orientações, colocar as vacinas em dia e realizar exames de check-up para detectar doenças. Tudo isso pode influenciar o pré-natal de qualidade, trazendo maior segurança para a mãe e o bebê. O uso do ácido fólico antes de engravidar, alimentação adequada, perda de peso para as mulheres com sobrepeso ou obesas, fazer atividade física, não fumar, se abster de bebidas alcoólicas, são algumas medidas que devem ser adotadas antes da concepção.



2 comentários:

Michelle Marie disse...

Fernanda, fui primípera aos 32 anos e tive descolamento prematuro de placenta de mais de 80% com 35 semanas.Não tive sangramento externo durante o descolamento.
Por volta de meia noite senti a nenem mexendo e acordei pela manha com hipertonia.

Fiz um pré natal durante toda a gravidez.

Como eu poderia identificar precocemente esta situação?

Estou tentando engravidar novamente.

Fernanda Santos disse...

Michelle, é difícil identificar isso precocemente, pois a hipertonia se inicia do nada mesmo. Ela não vem dando sinais de que vai acontecer. Acho que você não deve se preocupar com isso (fácil falar né?) pois não é um evento comum. Cuidado para vc não achar que qualquer dor que tiver na gestação jáé sinal de que vai acontecer denovo, pois é normalíssimo ter dor tipo cólicas na gravidez. O que eu sempre digo para minhas pacientes é: ter colica é normal desde que ela passe com repouso e medicação anti espasmódica. Se chegar ao ponto de você precisar tomar 3 vezes o remédio no mesmo dia e ela não passar, ou se você se deitar e ela piorar, isso já é motivo para você procurar o médico e investigar a dor. Mas se você toma o remédio e ela passa, se você deita e ela alivia.. fique tranquila. É a dor "normal".