terça-feira, 27 de setembro de 2011

É hora de ser mãe ou filha?




Hoje eu fiz o parto de uma menina com 13 anos que deu à luz ao seu segundo filho
Eu sinceramente não sei se era motivo para comemorar ou lamentar. Feliz pela saúde de seu bebê, triste pela situação. Ver a jovem mãe sorrir ao ter seu filho chorando em seus braços me fez pensar no que será do futuro de ambos. Vão viver de quê? quantos filhos mais essa menina terá? ela se sente preparada para ser mãe? Ela está dando conta de criar o mais velho? Ela interrompeu seus estudos? E o pai da criança, quem será? Ela tem apoio da família? Desejou engravidar? Numa fase da vida que ela deveria estar ainda recebendo educação, é ela quem educa outro alguém.  


Tudo bobagem, pura preocupação minha. Problemas sociais à parte eu fico pensando em todos os recursos de planejamento familiar que temos à disposição das pessoas, gratuitamente. Falo do Rio de janeiro, capital, e não de um lugar no interior, cuja realidade é outra. O governo faz campanha, os postos de saúde distribuem anticoncepcionais e camisinhas, sobram DIUs. O que acontece para que as pessoas continuem não evitando uma gravidez indesejada ou não planejada? Digo isso porque eu pergunto a elas se queriam ter engravidado. Elas não respondem um simples: "não" e sim "nããããooo!" então por que? e pergunto sobre métodos contraceptivos e elas me olham com uma cara de interrogação! "_Por que você não usou nada, então?"  "_ ah, não sei.." 


Existem tantos métodos para se evitar uma gravidez, existe até a pílula do dia seguinte. Por que ainda tanta gente não os utiliza quando necessário? Por que tantos abortos provocados por gestações "impossíveis" de se levar à diante? Por que esse mês teve record de abandono de bebês lá na maternidade? 


Enfim, um assunto muito na moda é a gestação em idade avançada, mas não podemos esquecer dos riscos da gestação na adolescência, pois o corpo dessa menina ainda não está preparado para receber um bebê. Gravidez na adolescência é um problema de saúde pública. A adolescente grávida tem maior risco para desenvolver infecções urinárias, hipertensão, prematuridade, anemia, placentas insuficientes, entre outros riscos. Fora o fato de interferir mais na escolaridade, na sua vida conjugal, em fatores psíquicos e sociais. 


Eu não conheço uma garota que tenha engravidado na adolescência por vontade própria, planejando ter um filho nesta idade. Então, onde estará a falha? 

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Todos os partos são especiais, mas o dele...


Hoje o meu sobrinho lindo e afilhado, João Guilherme, faz 2 anos. Este post é em homenagem a ele. 
Parto é sempre emocionante. Independente do tipo de parto e de quem é o parto. O coração palpita ainda hoje, após anos e anos fazendo isso, apesar de algumas pessoas acharem que, pra gente, é tudo a mesma coisa. Não é. Também não posso negar que fazer parto de filhos das minhas amigas e familiares tem um "quê" especial. Meus amigos são daqueles que conheço há 20 anos ou mais, sabe? Amigos do Jardim I (nem sei como se chama o jardim I hoje em dia, mudou tudo). É muito legal fazer o parto de seus filhos. Caramba, é um barato! Foi assim com o parto da Raquel, da Patrícia, da Ingrid, da Tânia, da Barbara (esposa do Silvio que virou minha amiga), da Renata e da Flavia (minhas primas), da Daniele, da Renata Cristina, da Ângela, e tantas outras amigas... agora tem mais uma grávida (Bernardo nasce em março). 

Mas esse post é do João. Eu vou abrir meu coração: foi diferente. 
Eu tive que indicar a cesárea porque a Fernanda (minha cunhada) teve insuficiência placentária já no finalzinho da gestação. Em 1 semana o líquido amniótico simplesmente desapareceu sem que sua bolsa d`água tivesse se rompido. Diante desse quadro, não tive outra opção. Antecipei 2 dias do que estava programado e ele nasceu em 22 de setembro de 2009. Me lembro como se fosse hoje. Meu irmão me ligando para dar o resultado da ultra e eu respondendo: " adramnia? então fala pra Fernanda não comer mais nada e ir pra São José que o João nasce hoje". Meu irmão me ouviu, mas estava apresentando um pequeno atraso de conexão da orelha para o cérebro, normal nos pais de primeira viagem. Ele respondeu "mas Fernanda, nós marcamos para dia 24". Pois é. Mudança de planos, normal em obstetrícia. 

Foi um parto ótimo. Eu e uma amiga obstetra operamos a Fê. Minha mãe, que também é obstetra, atuou no papel de avó. É isso mesmo. Vetei a participação dela porque era o nascimento do seu primeiro neto, depois de tantos anos de espera...tinha que curtir como avó. Estavam lá o meu irmão no papel de pai, irmão, filho, amigo e marido, minha pediatra, minha anestesista e minha instrumentadora. Clima de festa já que todos eram amigos entre si, paciente e equipe. Parecia uma cesariana como todas se não fosse a hora de colocar minha mão na cabeça do João para tirá-lo de dentro da barriga da mãe. Nesse momento deu um frio na minha barriga "caramba, é o meu sobrinho". Tudo bem que esse momento durou 2 segundos. E ele nasceu, lindo, chorando igual ao pai. Ele nasceu a cara do Eduardo. Mas era a cara do Eduardo chorando quando criança. Foi um parto inesquecível. É meu único sobrinho. Meu primeiro contato de verdade com crianças, já que minha família é pequena e sem crianças por perto. Esses dois anos convivendo com o João foram incríveis. Nunca havia trocado uma fralda antes e não entendia nada de cuidar de bebê. E ele é espertíssimo, inteligente, fala pelos cotovelos. Me surpreendo cada vez que estou com ele. Agora, quer saber o que eu adoro? é quando ele me vê, sorri e fala "Dindaaa". 



 Feliz Aniversário, lindão da titia!






segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Quando amamentar não sai como planejamos

Já não basta a mudança total de rotina quando nasce um bebê, ainda convivemos com o medo de ter uma Mastite nesse período...

Mastite é a infecção da mama que pode ocorrer em quem está amamentando ou não. A área afetada fica dolorida, avermelhada, endurecida, e pode vir acompanhada por febre, calafrios e mal-estar.
Acontece em cerca de 2% das mulheres que amamentam, já que o mamilo ou fissuras imperceptíveis na pele da mama podem servir de porta de entrada às bactérias que moram na nossa própria pele, como a Staphilococcus aureus, ou por bactérias que vem de outros lugares, como o estreptococo beta-hemolítico, E. coli e Haemoplilus influenzae. 

Existe diferença entre a Mastite, o Engurgitamento mamário e obstrução de um ducto mamário. Quando uma parte da mama está endurecida, percebe-se uma "nodulação" dolorida e não há febre, estamos falando de Obstrução de ductos, que é resolvido, na maioria das vezes com aplicação de compressas mornas e massagem local e ordenha da mama afetada. Quando a dor é nas duas mamas, generalizada, as mamas estão cheias, sem se identificar um nódulo ou área dura, tratamos de Engurgitamento, que também se resolve com compressas mornas e ordenha da mama para tirar o leite acumulado. Para isso, muitas vezes é necessário utilização de uma bomba de sucção, dessas compradas em farmácia. Agora, quando há febre, região vermelha, dura, dolorosa, como disse acima, isso é mastite e deve ser tratada com uso de antibióticos, anti-inflamatórios, compressas mornas com massagem para esvaziamento da mama. Muito cuidado com as compressas mornas! Se já tiver ocorrido a formação de um abcesso, podemos não perceber a quentura verdadeira da compressa e acabar queimando a mama. Deus me livre!

A compressa pode ser substituída pelo banho com água morna do chuveiro. Enquanto a água morninha vai caindo sobre a mama, você vai massageando a área afetada e ordenhando a mama para ir esvaziando aos pouquinhos. Você não vai conseguir esvaziar de uma vez. Deverá repetir o processo várias vezes ao dia. Como a água morna pode estimular a produção de leite, uma dica é colocar compressa fria cada vez que terminar a ordenha. Isso vai evitar que a produção aumente num momento que não é para aumentar, mas também não vai cessar a sua produção, e sim, controlar.

Como fazer a ordenha? Faça pequenos movimentos circulares na mama, usando a ponta de dois ou três dedos, sem deslizá-los sobre a pele. Comece massageando a aréola e depois siga o sentido do mamilo para fora, para desobstruir os ductos que estão perto do bico (não adianta desobstruir a parte externa sem tirar o que está obstruindo lá na frente, perto da saída). Após massagear um pouquinho, faça a ordenha: com a mão em forma de C, use os limites da aréola, empurre a mão contra o seu corpo e aperte para permitir a saída do leite. Faça isso várias vezes. Massagem-ordenha-massagem-ordenha. Após tirar o leite como na posição da segunda figura, faça o mesmo movimento em outro sentido, como na terceira figura.




O leite extraído manualmente ou através de bombinha pode ser oferecido ao bebê, mesmo usando antibiótico para tratar a mastite. O uso de um copinho é a melhor maneira de oferecer leite ao bebê porque o movimento que ele faz para mamar no copo é o mesmo que faz na mama. Já o bico da mamadeira é diferente e o bebê pode fazer confusão de bicos e desistir de mamar. A dica de fazer a ordenha manual e dar leite no copinho vale também para quem está com os mamilos muito rachados. Enquanto o mamilo cicatriza você pode ir dando o seu próprio leite no copinho. 

Só para lembrar, a pega correta do bebê é capaz de evitar a fissura dos mamilos.

(texto complementar sobre cuidados com amamentação neste Blog, editado em maio/11)




Amamentar nem sempre é fácil. É preciso orientação profissional, paciência, calma e insistência, além de abrir mão de boas horas de sono, claro, pois o bebê necessita mamar várias vezes durante o dia e a NOITE! Quando pergunto à mãe sobre como está a amamentação e ela responde "_ah, ele é um anjinho, dorme a noite toda", eu me preocupo "_hummmm, este bebê não está mamando exclusivamente ao seio. Amamentar requer um ambiente tranquilo (em minha opinião) e observar alguns (muitos) detalhes: se a posição da mãe e do bebê estão adequadas, se a pega do bebê está correta, se o bebê está pegando bem o peito, etc. Tomar cuidados para que os mamilos não rachem e para que o leite não empedre. Acho que todo mundo sabe quais são as vantagens da amamentação, tanto para a mãe quanto para o bebê. Mas às vezes é preciso fazer uma reflexão. Há mulheres loucas para amamentar, mulheres muito ansiosas, nervosas, passando por dificuldades ou problemas familiares ou afetivos, mulheres que sabem que devem amamentar, mas que, no fundo, não desejam amamentar; mulheres que se entregam de corpo e alma à amamentação, outras que até tentam, mas se houver dificuldade, desistem. Há também mulheres que não podem amamentar, como as que são portadoras do HIV, as que usam quimioterápicos, mulheres com catapora, com lesões de herpes na mama e que estão com tuberculose sem tratamento. Sem esquecer de falar de mulheres que querem amamentar, mas que não conseguem produzir leite suficiente. É o caso de quem fez cirurgia de redução de mama (nem todos os casos) e quem está passando por um estresse. Minha mãe, por exemplo só me amamentou por 15 dias. Ela não tinha licença-maternidade, não tinha apoio do meu pai, estava cheia de problemas e responsabilidades. Resultado: nada de leite. Naquela época não existia banco de leite, não se sabia muita coisa e, por isso, ainda era permitido ter mãe de leite e foi o que me salvou, pois eu não aceitava nenhum outro tipo de leite, papinha, nada. Já o meu irmão traçava tudo que via na frente e  não recebeu leite humano. Eu era uma criança mais saudável que ele.  Resumindo, eu acho que a gestação deve ser desejada e planejada. E isso envolve também a sua entrega no período pós-parto, que não é fácil. Quem amamentou bem sabe dos benefícios, mas quem tentou, fez de tudo e não conseguiu, não vai ser mãe pior por este motivo. Não se culpe por isso, mãe.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Aborto, a situação que ninguém quer passar




 Nem sempre as coisas saem como planejamos. Algumas vezes a gravidez tem um desfecho inesperado: o abortamento. Tem gente que pensa que aborto é sempre quando se provoca a perda do feto. Não é verdade. Aborto é quando se perde um bebe até 20 ou 22 semanas de gestação ou o feto pesando menos de 500g. Existe aborto provocado, considerado crime no Brasil, e o espontâneo.

Cerca de 40% das mulheres perdem um bebê em algum momento da vida. A maioria dos abortos acontecem por alterações cromossômicas no desenvolvimento do embrião, logo no comecinho da gestação.  As alterações cromossomiais podem ser entendidas como um defeito na fabricação. Não que a fábrica seja ruim mas, às vezes, o controle de qualidade de uma excelente fábrica falha, então, mesmo o casal saudável pode "fabricar" um embrião com defeito incompatível com a vida e a natureza trata de resolver a situação fazendo a mulher abortar. Algumas doenças, infecções ou acidentes graves também podem provocar perdas fetais. Em casos de intoxicação materna onde a mulher é gravemente atingida também pode ocorrer o aborto. Causas hormonais (baixa de progesterona, hormônio importante para manter a gravidez) também são causas comuns.

Vocês já devem ter ouvido falar em vários tipos de aborto: aborto inevitável, completo, incompleto, infectado, retido, habitual, aborto molar e aborto tubáreo.

Aborto inevitável: quando acontece sangramento uterino com o orifício interno do colo dilatado, especialmente se também houver perda de líquido amniótico. Pra mim esse é um dos tipos mais difíceis de lidar devido a fatores emocionais, legais, médicos e religiosos, pois muitas vezes o feto está vivo. O obstetra sempre fica numa situação difícil. Sem líquido nessa idade gestacional é praticamente impossível que o feto se desenvolva. Se ele nascer, não sobrevive. Esperar o óbito fetal espontâneo para depois fazer a mulher abortar? Quanto tempo isso pode levar? Se permanecer com a bolsa rota por muito tempo pode provocar uma infecção no útero. Decidir a conduta nesses casos é sempre complicado.

Aborto Incompleto: Quando a mulher engravida, se formam dentro do útero: a vesícula vitelínea, o saco gestacional, o embrião (que depois se torna feto). No aborto incompleto a mulher apresenta sangramento e quando faz a ultrassonografia já não tem mais embrião (que já havia aparecido em ultrassonografia anterior) ou o saco gestacional. Como permanecem restos ovulares dentro do útero, é necessário fazer uma raspagem cirúrgica, que pode ser por curetagem ou aspiração manual à vácuo.

Aborto Completo: nesse caso não há necessidade de tratamento cirúrgico, pois a ultrassonografia revela que não há restos embrionários ou fetais dentro do útero (já saiu tudo). Se resolveu sozinho.

Aborto Retido: quando ainda está tudo lá dentro, embrião e saco gestacional. A gestação pára de evoluir. Na maioria destes casos a mulher passa a sentir cólicas e sangramento dias ou semanas depois da parada de evolução da gestação e elimina o embrião / saco gestacional durante o sangramento, deixando de ser  aborto retido e passando a ser incompleto. Para o aborto retido, podemos esperar que este se torne incompleto para realizar curetagem (essa espera pode ser cruel para a mulher, mas é prudente, já que minimiza riscos de uma curetagem num colo fechado e não é risco para infecções -que é sempre a dúvida das pacientes); usar medicações vaginais para dilatar o colo (quando disponíveis) pode levar dias e a paciente deve estar internada durante todo o processo; fazer a aspiração à vácuo. Tudo depende da idade gestacional no diagnóstico e das condições clínicas da paciente.
Outra forma de aborto retido é o Ovo cego, ou gestação anembrionada (quando se forma o saco gestacional, mas não se forma a vesícula vitelínea, o embrião ou batimentos cardíacos após 6 semanas de gestação)

Aborto molar: a Mola Hidatiforme pode ser completa, quando não se forma saco gestacional e embrião, e parcial, quando a gestação se desenvolve junto com a Mola. (esse assunto é complexo, prefiro em falar em outro post)

Gestação ectópica: quando a gestação acontece na trompa, no ovário, no colo do útero ou no abdome. Destas, a mais comum é nas trompas. Não dá para o embrião se desenvolver nestes lugares, então, evoluem para o aborto. O tratamento é cirúrgico, mas em alguns casos, adota-se a conduta expectante com medicamentos. A gestação abdominal, rara, até pode evoluir, mas é cheia de complicações maternas e fetais. Até hoje já vi um único caso, há anos.

Aborto infectado: Quando o abortamento evolui com infecção, claro. Acontece quando há manipulação uterina, levando bactérias daqui de fora para dentro do útero. Na maioria das vezes acontece no aborto provocado.

Aborto Habitual: quando a mulher tem mais de duas perdas seguidas pelo mesmo motivo.
Quando há necessidade de tratamento cirúrgico para o aborto, indicamos a Curetagem uterina ou o AMIU (aspiração manual intra uterina, à vácuo). Vocês sabem como são realizadas?

Ambos são procedimentos cirúrgicos, realizados com a paciente deitada na posição ginecológica (a mesma que se faz preventivo), com anestesia geral e dura poucos minutos. Todo mundo pergunta se vai sentir dor. Não, não vai porque recebe anestesia. Em ambos os casos pode ser necessário dilatar o colo do útero com Velas (foto abaixo).

Velas para dilatação do colo
Ao término, a paciente sai acordada e ainda com soro e medicamento para manter o útero contraído. Após algumas horas a mulher pode receber alta e orientações de repouso por alguns dias.






Pinça coletora usada na curetagem
Na Curetagem (não é "coletagem") o médico usa o espéculo vaginal para identificar o colo, uma pinça para fixar o útero e instrumentos de ferro que capturam o material que deve ser retirado e outro para raspar o útero por dentro até perceber, através de seu tato, que já pode terminar o procedimento. Tem como complicação principal a perfuração uterina, rara em mãos experientes. Porém, não é tão incomum ainda permanecerem restos, o que indica necessidade de novo procedimento. Isso pode acontecer por vários motivos, mas o principal é que se trata de um procedimento às cegas, ou seja, o médico não tem a visão interna do útero. Úteros volumosos, com malformações ou com infecção também são fatores de risco para perfuração. Falar em perfuração parece ser assustador, não é mesmo? Mas na maioria das vezes esse problema se resolve com medicamentos que aumentam a contração uterina, mantendo a paciente em observação sem necessidade de cirurgia abdominal.

AMIU
AMIU, é a aspiração manual intra-uterina. A curetagem através desta técnica é ideal para colos fechados e aborto retido precoce (bem no iniciozinho da gestação). Também tem risco de perfuração e deixar restos, pelo mesmo motivo da curetagem convencional, mas como a cânula do AMIU não fica raspando na parede interna do útero (endométrio), o risco de causar sinéquias, que deixam a mulher sem menstruar ou com menstruação irregular, diminui. O que são sinéquias? Quando partes do revestimento interno do útero se "colam" porque essas partes ficaram desnudas de endométrio. Isso causa irregularidade menstrual ou ausência desta.  Por isso é importante ficar de olho no tempo que vai levar para a mulher voltar a menstruar depois de uma curetagem.


Como muitas mulheres passam por uma perda fetal na vida e sempre tem muitas dúvidas sobre o assunto, resolvi trazer esse assunto para o blog. Espero ter esclarecido as dúvidas mais comuns. Falar de aborto é chato. Aborto já é uma palavra muito feia. Ninguém gosta de passar por isso. Nem as pacientes, familiares nem os médicos. Erra quem pensa que é fácil o médico dar esta notícia à paciente. Pra gente não é tudo igual. Por outro lado, alguém nesta história tem que ter os pés no chão e manter o controle da situação. Mesmo quando isso acontece com uma pessoa próxima (frequentemente me deparo com esta situação) eu tenho que manter uma postura mesmo que esteja arrasada. Está todo mundo triste. Imagine se eu entrar nesse clima e chorar junto! Tento sempre fazer com que a situação se torne amena, usando meu conhecimento médico que o paciente não tem, e não deixar que a emoção me faça tomar condutas manipuladas pelo psicológico meu ou da paciente. Essa é a parte difícil: fazer a paciente entender que a conduta ideal para ela nem sempre é a que ela queria que fosse.

Por fim eu queria passar uma mensagem: se isso aconteceu ou está acontecendo com você, você não está sozinha nisso. Milhares de mulheres passam pela mesma situação, que não escolhe família, raça, credo, situação financeira ou personalidade para acontecer. Às vezes não era a hora e a gente não sabia. A maioria das mulheres que experimentaram uma perda recebe a glória de gerar um filho lindo e saudável e realizam o sonho da maternidade.






terça-feira, 6 de setembro de 2011

Xô TPM!


Amigas! Acabei de voltar de um congresso de ginecologia em São Paulo. Foi ótimo. Adoro ir a São Paulo. Além de participar de bons cursos, pude jantar em lugares agradáveis como a cantina Famiglia Mancini e ainda assisti ao musical "As Bruxas de Eastwick", uma comédia que eu super recomendo (mas pra quem gosta de musicais). Os dias estavam lindos, com céu azulzinho e um frio delicioso! No congresso, falou-se de diversos assuntos. Um deles é a síndrome pré-menstrual. Como ainda não havia feito um post sobre TPM, aqui está ele.

Quem pensa que TPM não existe ou é frescura está muito enganado. TPM existe e pode até deixar uma pessoa doente,  mas tem tratamento. TPM é coisa de mulher, sim, mas não há necessidade de ter TPM para se sentir mulher, né?

Você sabia que cerca de 70% das mulheres tem TPM de forma branda? 10% das mulheres com TPM necessitam tratamento. Cerca de 5% delas apresentam sintomas neurológicos, a chamada síndrome disfórica.

Por que EU tenho TPM?
TPM tem haver com história familiar, por desequilíbrio hormonal e também tem causa psíquica.

TPM não é só ficar irritada perto de chegar a menstruação. Qualquer sintoma de irritabilidade, alterações do sono, compulsão alimentar, retenção de líquido, dor nas mamas, dor de cabeça, náuseas, alterações intestinais, depressão, mal estar, desânimo, cansaço, dor nas penas, ansiedade, alterações emocionais, vontade de "matar um", que se inicia dias entes de menstruar e termina quando chega a menstruação ou pouco antes dela ir embora, é TPM. Eu tenho pacientes que se queixam destes sintomas e ainda dizem que os sintomas duram o mês todo. Isso não é TPM. T= tensão, P= pré (aquilo que vem antes, antecede), M= menstruação. Logo, os sintomas começam na segunda fase do ciclo menstrual, logo após a ovulação e terminam com a menstruação. Já quem usa anticoncepcional que faz pausa de 1 semana entre as cartelas, pode ter TPM quando termina a cartela, pois o organismo percebe que você está no intervalo sem hormônios. Fora disso, não é TPM. Tenho pacientes que dizem que a irritabilidade ou a dor de cabeça começa ainda no final da cartela. Isso não é TPM. Mais uma coisa: quem não faz pausa no anticoncepcional, ficando sem menstruar, também não tem TPM. Tem gente que reclama que não menstruou porque não fez a pausa do anticoncepcional, mas que sentiu todos os sintomas e foi pior porque a menstruação não desceu, o que aliviaria. Isso, na verdade, não tem sentido, pois quem usa anticoncepcional, sangra nos intervalos porque o organismo sente falta do remédio e a alteração brusca de hormônios faz sangrar. Se não fez intervalo e não sangrou, não tem como ter TPM. É uma das poucas coisas em medicina que eu realmente digo que é psicológico.

Existem vários tratamentos para a TPM e a síndrome disfórica (forma mais grave). Vai desde a mudança de hábitos diários até medicamentos. A primeira coisa que você deve fazer é atividade física aeróbica, não só no período pré-menstrual. Outra coisa é não abusar de cafeína (refrigerante como a coca-cola, guaraná; café, chocolates, mates, chás), evitar gorduras. O fumo e o álcool podem piorar os sintomas da TPM, mas alguns alimentos podem evitar e até reduzir o quadro. São eles: cálcio (leite, queijo, iogurte, por exemplo), Vitamina D (leite, salmão, sardinha, óleo de fígado de peixe, cogumelo, ovos), Magnésio (folhas verde-escuras, granola, arroz integral, banana, beterraba, abacate), vitamina B6 (folhas escuras, batata, banana, salmão, atum, fígado, aveia, gérmen de trigo, amendoim, nozes, arroz integral), Vitamina E (cereais integrais, nozes, castanhas, azeite de oliva, azeitona, óleo de soja e de girassol, milho, gema de ovo, gérmen de trigo, agrião), água, ácidos graxos (pexe, atum, sardinha, salmão, óleo de soja azeite, rúcula, espinafre, linhaça, ômega 6 para controlar a oleosidade da pele (óleo de milho, de girassol, leite, ovos, lula), Zinco (vegetais escuros, carnes, leite, frutos do mar) e fibras (verduras, frutas, farelo de trigo, linhaça...).

Entre os tratamentos estão os anticoncepcionais sem pausa (claro, se não menstruar, não tem TPM), os anticoncepcionais com pausa curta entre as cartelas, principalmente os com drospirenona, pois mesmo quando a cartela termina este hormônio continua agindo por mais 33 horas. Quando o organismo sente a falta dele, já está na hora de iniciar nova cartela e não dá tempo de ter a TPM. Para quem não usa anticoncepcional, existem outras opções como medicamentos a base de ácido gamalinolênico, de piridoxina - vit B6), plantas como o vitex agnus castus, óleo de borago officinallis, óleo de prímula. Alguns diuréticos especiais também podem ser usados quando a queixa principal é o inchaço neste período. Nos quadros mais graves, como os da paciente que tem síndrome disfórica, o tratamento pode ser com uso de fluoxetina ou sertralina. Esses medicamentos são controlados, mas sem causar dependência e são utilizados para tratar muitas coisas. Tudo depende da dose utilizada. Estes medicamentos tem resultados excelentes! Quando a coisa é mais branda os anteriores resolvem muito bem, pena que não são medicamentos encontrados no SUS e não são muito baratinhos.

Portanto, meninas, se vocês sofrem com TPM, procurem tratamento e evitem um ato de violência. Se vocês tem vontade de matar o marido, por exemplo, esperem a menstruação ir embora para não tomarem nenhuma atitude por impulso. Mas se vocês querem muito matar o marido, aproveitem esta fase e usem isso como desculpa.