quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Seu útero é virado ou invertido?





Existem diferentes tipos de úteros. O útero da mulher é em forma de pera de cabeça para baixo. O das porquinhas é em forma de Y. (sei disso porque já operei uma porquinha. Os porquinhos ficam distribuídos ao longo das pernas do Y, por isso cabem vários porquinhos na barriga da mãe. Confesso que nunca havia estudado anatomia dos outros animais). Às vezes a natureza tira férias e fazem a mulher ter malformações uterinas. Então o útero pode ser: bicorno, unicorno, duplo, septado, arqueado. Mas isso fica para um outro post.

Além disso, dentro do que consideramos útero normal (o que se assemelha à pera), existem variações de posição:

AVF: útero antevertido ou em anteversoflexão
MVF: mediovertido ou medioversão
RVF: retrovertido ou retroflexão, popularmente conhecidos como útero virado ou invertido.

São apenas variações. São todos normais. Cerca de 20% das mulheres possuem o útero retrovertido. É errado dizer que ele é invertido. Uma leitora me pediu esclarecimentos sobre este tipo de útero, então, vou tentar explicar.

Útero virado e invertido não existem! A inversão uterina é uma emergência obstétrica que pode ocorrer no parto normal ou cesariana e deve ser rapidamente corrigido porque pode ser fatal.

O útero assume uma posição anatômica desde que nascemos. O útero não é um órgão fixo. Calma, ele não sai andando pela nossa barriga, ele é sustentado por ligamentos. É como se você fosse trapezista e pendurasse seus braços, amarrasse um elástico na cintura de cada lado, e outros nas pernas. Deste modo o útero é móvel quando tocamos nele, até na relação sexual. Bem, o útero mais comum, o antevertido, tem seu corpo voltado para o abdome e "descansa" sobre a bexiga. Quando ele tem o corpo voltado para a parte de trás do nosso corpo é chamado de retrovertido. Também pode assumir posição mediana: mediovertido.

Vejam as imagens:

útero voltado para trás
Retrovertido
útero voltado para frente, sobre a bexiga
Antervertido













Essas posições são detectadas na ultrassonografia ou no toque vaginal ou até quando o ginecologista faz o exame especular e vê de onde está vindo o colo. O colo mais difícil para ser visto é o colo que vem de cima (quando o útero é retrovertido). O mais comum é o colo surgir de baixo conforme formos abrindo o espéculo (útero antevertido). Às vezes eu até comento com a paciente "espera aí porque seu colo tá vindo lá de cima" e tenho que quase me ajoelhar para visualizá-lo. É o colo do útero em RVF. Outras vezes falo "ah esse colo é moleza, mal passo o espéculo e ele está bem na minha cara" (é o colo do útero em MVF). O que vem lá de baixo (ou de trás) também é bonzinho. Não dá trabalho pra visualizá-lo, não.

Veja a seguir o toque ginecológico. O dedo do examinador está dentro do canal vaginal e encosta no colo do útero. A entrada do colo está abaixo (posterior) do dedo do examinador. Esse é o útero antevertido. Quando ele passar espéculo nessa paciente, o colo estará na posição posterior da vagina. A bexiga é aquele triangulinho acima do dedo que está na vagina. A outra mão está no abdome, logo acima do pubes.

Saber a posição do útero é importante quando o médico precisa realizar algum procedimento dentro dele, como uma curetagem, inserção de DIU, histeroscopia, inseminação intra-uterina, essas coisas. Além disso, quem sempre teve o útero antevertido, por exemplo e passa a ter retrovertido deve pesquisar o motivo. A posição pode ter sido alterada por aderências pélvicas, tumorações uterinas ou em órgãos vizinhos, por exemplo.

Útero retrovertido não causa infertilidade em ninguém. Por isso a tão comentada pergunta "meu útero é invertido, terei dificuldade para engravidar?" a resposta é: não se o motivo for apenas esse. Engravidar não depende da posição do útero, e sim de outros fatores.


terça-feira, 23 de agosto de 2011

complementando post de assuntos gerais.

Pessoal, eu ia escrever sobre um assunto, mas me lembrei de outras dúvidas e acrescentei ao post anterior... como está muito tarde e daqui a 4 horas e meia eu tenho que acordar, colocarei outro tema depois, tá?

sábado, 20 de agosto de 2011

Assunto de interesse geral

Resolvi interromper a série de posts explicativos sobre exames e cirurgias para escrever um pouco sobre as dúvidas ou os erros mais comuns que observo no meu dia-a-dia. Eu gosto muito quando recebo adolescentes no consultório porque eu tenho a oportunidade de passar algumas informações importantes e, assim, evitar que elas cheguem aos 30 anos fazendo um monte de coisas erradas. Problema é que sempre tem uma tia ou vizinha que atrapalha o meu serviço. Sabe aquela história "-você não tomou o remédio que eu passei? - ah, é porque minha mãe achou melhor eu não tomar", então.

Tentei colocar aqui tudo que eu lembrei. Pra mim não tem dúvida boba e eu sei que muita gente deixa de tirar uma dúvida ou fazer uma pergunta por vergonha. E esse post é pra todo mundo, sem descriminação. O semestre lá na faculdade começou e recebi novos alunos. Notei que alguns deles tinham alguns conceitos errados, que são mito, mas entendo que são coisas que vêm da época da nossa tataravó. Eu não tenho a menor intensão de fazer os mitos desaparecerem. Não tenho esse poder, mas pelo menos de mim, sairão informações verdadeiras. E eu preciso transmitir isso.

Vamos lá:

"Ter cólica menstrual é normal. Coisa de mulher"
Cólica menstrual é normal quando passa sem tomar remédio ou quando passa com remédio fraquinho. Ela deixa de ser normal quando a pessoa precisa ir a uma emergência ou não consegue sair de casa de tanta dor. Nesse caso, procure um médico! Fico angustiada quando mulheres de vinte e poucos anos ou trinta me procuram pra falar deste tipo de cólica que vem acontecendo há anos sem tratamento. E como isso é comum, infelizmente.

"Meu ciclo é bagunçado, sempre adianta alguns dias".
Menstruação regular não precisa ser aquela que vem no mesmo dia do mês. Ela pode variar em poucos dias. O intervalo entre o primeiro dia de uma menstruação e o primeiro dia da menstruação seguinte deve ser maior que 22 dias (de acordo com algumas literaturas) e menor que 35. Deste modo é possível menstruar duas vezes no mês (ninguém merece), no início e no finalzinho.

Quando o ginecologista pergunta quando foi a última menstruação, queremos saber quando foi o primeiro dia da última menstruação e não o dia que ela foi embora, tá? Nós sempre vamos fazer essa pergunta porque trezentos mil problemas ginecológicos estão relacionados à menstruação e o diagnóstico depende desta simples resposta.

Usar absorvente íntimo não causa câncer

"Eu estou na menopausa"
Menopausa não é uma fase. É uma data. A data da última menstruação da mulher. Ninguém está na menopausa. A mulher teve a menopausa com xx idade. Existe a fase do climatério que compreende o período pré-menopausa até alguns anos após a menopausa.

"Acho que estou com osteoporose, pois sinto muita dor nas pernas"
Osteoporose não causa dor. A dor ocorre em fase avançada, já com micro fraturas ósseas ou pinçamento de  nervos.

"Sempre tive corrimento. Meu corrimento sempre volta. Nunca fico livre de corrimento"
Nem todo corrimento é de inflamação. Durante o exame clínico especular, somado à sua queixa  nós conseguimos diagnosticar a presença ou não de inflamações. A vagina é úmida e a quantidade de secreção presente dentro dela varia de acordo com o ciclo menstrual.

"Quero fazer preventivo porque estou com um corrimento forte"
Preventivo não deve ser feito para diagnosticar inflamação, mas para diagnosticar lesões provovadas pelo HPV.

"Meu preventivo sempre dá inflamação"
O exame preventivo é realizado para diagnosticar lesões pré-malignas provocadas pelo vírus HPV quando está em sua fase ativa. Estar escrito no preventivo "inflamação" ou "processo inflamatório", por exemplo, não significa que você esteja com inflamação. Esse diagnóstico deve ser feito de acordo com o exame especular e sua queixa no dia que você fez o preventivo. Desse modo, repito: preventivo não é feito para diagnosticar inflamação.

"Minha ultra mostrou que tenho ovários policisticos"
ducha de banheiro
Síndrome de ovário policístico (ou mais bonitinho síndrome hiperandrogênica) não tem cura e é diagnosticada pela clínica da paciente (analisando seu ciclo menstrual e sintomas associados) e não por ultrassonografia.

Todas as vezes que for ao banheiro fazer o número 1 ou número 2 a mulher deve usar a duchinha. É impossível ter a higiene adequada só com papel higiênico

"Meu intestino é preso, e mesmo quando tomo activia não resolve fácil"
A prisão de ventre (constipação) está muito relacionada à alimentação. Ao invés de ficar tomando laxante quando necessário você deve tomar mais água, comer mais frutas, legumes e verduras, além de praticar exercícios aeróbicos. Não se acostume com a prisão de ventre. Activia, farelo de trigo, linhaça, fibras em pó devem ser usados diariamente por quem tem constipação porque eles evitam o quadro. Já os laxantes são usados quando o quadro está instalado. Outro dia atendi uma paciente que fica até 15 dias sem ir ao banheiro. Como assim??? ela disse que só almoça em fast food, não lembra de tomar água e é sedentária. Eu pensei que se tratava de uma pegadinha, mas era verdade. Ela NUNCA havia recebido informações sobre o que fazer para não prender  tanto o intestino. Pior que quando ela voltou disse que eu resolvi os seus problemas! Virei desentupidora e apresentei a felicidade para ela. Hã?

"Algo está se mexendo na minha barriga". "Engravidei e tenho mioma. Ele vai matar meu filho?"
Mioma não come criancinha e não se mexe dentro da nossa barriga. Esse mito é muito antigo. Ainda hoje ouço esse comentário no serviço público e privado.

Objetos esquecidos dentro da vagina (como uma camisinha, por exemplo) não são capazes de passar para dentro do útero e então, para o abdome. Muita gente entra em pânico achando que perdeu o OB, o preservativo.. e que nunca mais vai encontrar. Uma paciente que atendi na emergência disse que esqueceu de tirar o OB, mas eu examinei e não havia mais nada lá. Foi um trabalho enorme de convencimento para que ela entendesse que o OB saiu da vagina sozinho ou ela havia tirado e não se lembrava.

Nunca passem álcool na vagina, nunca. Nem experimentem isso!

"Engordei muito depois que comecei a tomar pílula". "Quero trocar de pílula porque estou emagrecendo demais". "Quando paro de tomar pílula eu engordo"
Anticoncepcional pode fazer você reter líquido. Não dá pra ganhar 5 Kg de edema. Da mesma maneira que há pacientes que dizem que engordaram 10 kg com pílula, outras reclamam que emagrecem demais. A pílula não engorda, nem emagrece.

"Se eu tomar pílula por muitos anos vou ter dificuldade para engravidar?" "Dei uma pausa na pílula para limpar o organismo, depois volto a tomar"
Tomar pílula por muitos anos não causa infertilidade. Não há nenhum benefício em fazer pausas de meses para descansar do anticoncepcional. A pílula não suja o nosso organismo.

Pílulas de 21 comprimidos devem ter intervalos de, no máximo 7 dias entre as cartelas. Já vi várias pacientes tomarem errado porque, quando termina a cartela, elas esperam menstruar e daí contam 7 dias para recomeçar. NÃO! está errado e você pode engravidar! A pausa para recomeçar nova cartela é independente da menstruação.

"Trouxe minha filinha aqui pra começar a fazer preventivo". "Eu sempre colhia preventivo com cotonete".
Virgem não faz preventivo. Não existe preventivo com cotonete. Preventivo é para pesquisar lesão provocada por HPV, logicamente em mulheres que já iniciaram vida sexual. É necessário passar o espéculo e ver bem o colo e de onde retirar amostra de secreção para estudo. Cotonete, na verdade, é um swab para coleta de secreção vaginal para diagnosticar uma inflamação. A secreção vai para o microscópio p/ ser estudada.

"Tenho 40 anos e minha menstruação sempre foi assim: vinha de 6 em 6 meses".
Sei que menstruar é chato para algumas pessoas, mas menstruar de 2 em 2 meses ou só algumas vezes no ano, sem estar tomando anticoncepcional, não é normal! Procure o médico para tratar este problema.

"Preciso tomar antibiótico para infecção na garganta. Ouvi dizer que ele diminui a eficácia da pílula".
Não é qualquer antibiótico que reduz eficácia da pílula. Basicamente a Rifampicina é o único que inspira cuidados. Os antibióticos comuns usados por todos nós não reduzem a eficácia, segundo a OMS (organização Mundial de Saúde)

"Meu útero é invertido. Me disseram que teria dificuldades para engravidar, então nunca me preveni contra gravidez e estou grávida!"
Ter a posição do útero retrovertida ou RVF (você vê isso no laudo da ultrassonografia) não quer dizer que seja útero invertido e não afeta a fertilidade. Útero invertido é uma intercorrência que pode acontecer no parto e é uma emergência. O médico deve rapidamente colocá-lo de volta à sua posição, por risco de morte materna.

Quando fazemos o toque ginecológico só alcançamos até o colo do útero. Hoje examinei uma menina que fez uma cirurgia no ovário e ela estava achando que eu poderia machucar o ovário que ela operou. Achava que teria cicatriz onde eu mexeria. Lá vai uma foto de anatomia pélvica:
O dedo do examinador só vai até o final da vagina (colo)
e não tem contato com a genitália interna (ovarios, trompas e corpo do útero)


"Parei de tomar pílula porque tenho cistos nas mamas"
Nódulos benignos de mama não contra-indicam o uso de anticoncepcionais e não são fatores de risco para desenvolver câncer.

"Não trato TPM porque é coisa de mulher"
TPM não é frescura. Existe, mas tem tratamento à base de medicamentos naturais ou não. Portanto, só não trata quem não quer. Taí duas coisas que me irritam um pouco quando ouço mulheres conversando: TPM e Cólica. Eu não entendo por que preferir ficar reclamando do que tratar. Eu vejo mulheres que vivem reclamando de TPM e se recusam a tratar "não gosto de tomar remédio". Tá bom, então fique longe quando estiver perto de menstruar.

"Olha como ele é cabeludo! Por isso tinha tanta azia"
Azia na gestação não quer dizer que o bebê seja cabeludo. Mais um mito muito antigo, que vai continuar passando de mãe para filha por muitos e muitos anos...

"Passei o final de semana todo com dor de cabeça, mas não posso tomar nada, né?"
Grávida não pode tomar nada. ISSO NÃO É VERDADE. O obstetra sabe todos os medicamentos que não fazem mal para agestante e seu bebê. Converse e confie nele. Fico muito triste (triste nada, fico irritadíssima) quando passo um medicamento para uma gestante tomar e ela não toma porque, ao chegar à casa, a vizinha disse que ela não devia tomar. Tem grávida que precisa de antibiótico para tratar, por exemplo, infecção urinária (uma das infecções mais comuns na gestação e que pode levar à morte) e arregala os olhos quando prescrevo o medicamento. "-mas isso não vai fazer mal ao bebê?". Não, barrigudinhas, não tratar é que vai fazer mal, muito mal.

"Quando ele se mexe muito, sinto puxar meu umbigo"
O cordão umbilical do feto está ligado na placenta e não no umbigo da mulher, que é apenas uma cicatriz.

cordão umbilical vai da placenta até o abdome do feto. Em vermelhinho, a placenta.
Grávida não pode carregar peso. Não é verdade. Em gestação normal, sem risco de parto prematuro, não há essa contra-indicação, afinal, gravida pode fazer musculação. Eu sinto que há gestantes que não gostam muito quando eu falo que elas podem carregar peso, podem se abaixar, devem fazer exercícios e não devem engordar. Mas eu não posso mentir.
essa gestante não tem ninguém para carregar esta lata para ela.

Grávida pode dirigir enquanto conseguir. Minha amiga foi dirigindo para a maternidade, em trabalho de parto. Não sigam o exemplo dela, que é uma doida, mas cada uma sabe o seu limite de até onde consegue ir. Eu proibi uma gestante de dirigir porque numa mesma gravidez ela bateu o carro duas vezes e deu perda total numa delas.

"Não quero ter relações com minha mulher porque posso machucar o bebê"
O pênis não alcança o bebê durante a relação sexual com a gestante. Existe uma distância razoável até chegar dentro do útero, da bolsa amniótica e finalmente no bebê. Veja abaixo que o colo do útero, fechado, impede que o pênis entre em contato com o bebê. O Pênis vai só até o final da vagina.

Cervix = colo do útero

"Não fiz a ultrassonografia porque estava menstruada"
O melhor momento para fazer ultrassonografia transvaginal é logo após a menstruação. Mas você não precisa deixar de fazer o exame porque está menstruada. Ainda mais porque há situações em que este exame deve mesmo ser feito nesse período.

"Doutora, quero fazer um check-up, quero um Hemograma completo!"
Hemograma completo é apenas 1 exame de sangue que vê anemia, infecções... ele não vê açúcar no sangue (glicemia), nem colesterol, nada disso. Para um check-up pedimos Hemograma completo + glicemia + perfil lipídico + hormônios de tireoide..... ok?

"Quando não fiz pausa da pílula não menstruei e senti todos os sintomas de que ia menstruar. Foi pior ainda porque ela não desceu"
Não tem como ter sintomas pré-menstruais se não menstruar. Quem toma pílula começa a ter sintomas de TPM na pausa entre as cartelas. Se não faz a pausa, não tem sintomas.

"E se eu não menstruar? Pra onde vai o sangue?"
Não vai. Ele não é produzido.

"Manga com leite faz mal?"
Não!!! isso vem da época dos escravos. O senhor da fazenda não deixava seus escravos comerem manga e ainda assim tomarem leite. Então essa informação era passada a eles.

"Sexo anal causa hemorroida ou dá câncer"
Não! mas quem tem varizes hemorroidárias (hemorroida) pode ter mais dor e causar sangramento durante o sexo anal. Além disso, as infecções por HIV, hepatite B ou C, por exemplo, são mais facilmente transmitidas pelo ânus, por isso, use sempre camisinha! e Nunca tenha relação vaginal após a anal, a não ser que troque o preservativo.

Gestante, veja porque sua barriga dói de vez em quando:

feto dentro do útero

Bom, essas foram as que vieram à minha cabeça nesse momento. Conforme for lembrando de outras, volto aqui e acrescento, ok?
Bom final de semana!

Lembrei de mais algumas dúvidas! 23/08

"Usar sabonete íntimo todo dia faz mal".
Não! A vagina tem pH ácido e estes sabonetes também. Então eles tentam manter o pH da vagina, pois se ele se alterar pode causar inflamações. Os sabonetes que usamos no corpo (Dove, Protex, Lux, etc etc) tem pH diferente da vagina, específico para a nossa pele. Devem ser evitados na região íntima por quem tem predisposição às inflamações.

"Fiz histerectomia total. Tirei tudo. Utero, trompa, ovário"...
Histerectomia total significa retirada do utero todo (corpo e colo). Se for tirar ovários também é: histerectomia com ooforectomia. Se for tirar útero e trompas: histerectomia com salpingectomia. Se for tirar realmente tudo: histerectomia total com anexectomia bilateral. Entenderam?

"Tive a menopausa quando retirei o útero'.
NÃO, NÃO e NÃO. Quem manda nos nossos hormônios são os ovários. O útero recebe a informação deles e menstrua. A retirada do útero faz a mulher parar de menstruar, mas se os ovários permaneceram lá, só Deus sabe quando você terá sua menopausa. Isso pode ser descoberto através de exame de sangue, pois nem todo mundo que passa pelo climatério tem sintomas.

"Quem tira o útero fica ôca".
Ai gente, não, né? Sai o útero, mas fica todo o resto! intestino. ovários, trompas, bexiga, estômago, baço, rins, pâncreas, fígado.... ôca??? ah não! E também não fica um vazio lá dentro, não. Os demais órgãos se acomodam onde estava o útero. Fica tudo bonitinho.

"Tenho TPM horrorosa! mal acaba a menstruação ela começa".
Não dá, gente. TPM é pré-menstrual. Só pode começar na segunda fase do ciclo menstrual, com predomínio da progesterona. Se vc tem irritabilidade, cansaço, dor de cabeça, depressão, alterações com sono... o mê todo, procure um clínico. Isso não é TPM

"Não tomo leite puro, mas tomo Nescau de manhã, então previno a osteoporose".
Infelizmente o chocolate rouba o cálcio do leite, então não adianta nada tomar achocolatados achando que está prevenindo osteoporose...

"Depois que liguei as trompas minha menstruação ficou mais forte"
Primeiro é preciso saber se você tomava anticoncepcional antes, pois ele diminui o fluxo. Ao ligar as trompas você deixa de usar hormônio, logo, o fluxo aumenta. Além disso, devido à circulação colateral e ligação entre as trompas e os ovários, pode haver aumento do fluxo, sim, após a ligadura.

"Tive mais dor no pós operatório da cesárea porque liguei as trompas".
Esse procedimento não aumenta dor no pós operatório.

"Fiquei com a bexiga arriada porque peguei muito peso na vida"
Na verdade a cistocele (prolapso da parede anterior da vagina OU queda de bexiga) pode ocorrer independente de partos normais e esforço físico ou pegar peso. É muito de pessoa a pessoa. Tem haver com o organismo de cada pessoa. Minha avó teve 4 partos normais em casa e morreu aos 93 anos sem bexiga arriada. Descobri isso porque quando ela já estava bem velhinha teve um probleminha e eu a examinei pela primeira vez. (quem sempre fazia isso era minha mãe) e fiquei de boca aberta. Nem parecia... Tenho uma "tia" que só teve 1 cesárea e já fez cirurgia para correção de bexiga 2 vezes e precisa fazer a terceira.

"Resguardo de menino são 30 dias. De menina são 40"
Como diz o "Valéria" do Zorra Total (nunca me imaginei achando graça nesse programa, mas esse cara é muito bom), Minha nossa Senhora do Chuveiro elétrico! Dai-me resistência. De onde tiraram isso? É tudo igual, pessoal. Será que alguém com boa criatividade poderia me explicar pq seria diferente?

"A internação do parto normal dura 1 a 2 dias, mas da cesárea, 3 a 4 dias"
Em que lugar é assim? Na rede privada a internação de ambos não ultrapassa dois dias, desde que tudo esteja bem. No público pode demorar um pouco mais porque mãe e bebê realizam exames na maternidade e só podem ser liberados depois que os resultados ficam prontos. Aí, sabe como é.

" Minha cicatriz de cesárea foi feita com Laser"
Desculpe a frustração mas não foi. Muitos médicos usam os pontos intradérmicos. Podem ser feitos com um fio preto que é retirado depois, ou com fio transparente que é absorvido pelo organismo. Como quase não tem fio aparente, parece que foi utilizado cola ou laser. Nenhum dos dois.

"Após o parto  você só pode ir para casa depois de ir ao banheiro"
Não é verdade. Isso acontecia há muito tempo atrás. Agora, não. Até porque é normal ficar de 3 a 4 dias sem evacuar (acho essa palavra horrível) após uma cirurgia.

"Para ter parto normal ou cesárea precisarei fazer lavagem"
Que bom que isso não é mais uma realidade. A lavagem pode deixar resquício de fezes e quando a mulher faz força no parto pode eliminar o que restou de forma líquida, explosiva e contaminar o parto. Melhor é não fazer lavagem alguma.

"A mulher pode evacuar no parto?"
Essa pergunta foi feita outro dia por uma amiga minha. É verdade, amiga, é verdade. Coisas da vida.

"O bebê demora muito para mamar no peito quando nasce de cesárea"
Devo discordar. Poucas horas após a cesárea o bebê vai para a mãe consegue sugar normalmente. Assim que nasce ele é colocado no peito para ir conhecendo o menu disponível nas duas pracinhas de alimentação.

"Se eu tiver uma cesárea, todos os meus próximos partos terão que ser cesárea"
Não! É possível ter parto normal após cesárea. Porém, quando tem parto normal, não há limite e filhos, pode ter 20 partos normais, já a cesárea tem limite. O máximo que já operei foi a sexta cesárea de uma paciente e foi um sufoco. É muito arriscado ter muitas cesáreas devido às aderências e perda de anatomia dentro do abdome.

"Meu bebê pode nascer de parto normal mesmo com circular de cordão"?
Sim, desde que, durante o trabalho de parto o ritmo do coração fetal se mantenha normal. Através da ausculta dos batimentos é possível saber se a circular está causando algum problema no feto ou não. Além disso, muitas vezes a ultrassonografia não consegue ver que tem circular. Além disso II, o bebê pode se enrolar de uma hora para outra.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Eu voltei!


Ai gente eu tenho que me desculpar pela ausência desses dias. 
Eu estou muito estressada com o excesso de trabalho e a carência de lazer. Percebi que eu cuido de tantas pessoas e não estava cuidando de mim. Coisas básicas do dia-a-dia como sentar no sofá e ver TV, conversar com amigos, olhar a lua, admirar o dia lindo lá fora, deixaram de fazer parte da minha vida. Aí não pode, né? Então entrei num projeto-saúde (física e mental) e acabei tendo dificuldades de conciliar tudo. Dei um jeito (não me pergunte como) e marquei (e compareci) consultas médicas para mim mesma, exames, e retomei meu objetivo "seca-Fernanda". Vou explicar: é que com tanto trabalho e sem tempo para me exercitar eu engordei horrores em 2 anos, mas eu adoro fazer atividade física. Eu jogava squash e fazia musculação. Para meu desespero o clube de squash perto da minha casa fechou e eu fiquei órfã. A falta de tempo ia ficando cada vez pior até que parei a musculação e tentei o Pilates, que não durou nem 1 ano. Desde abril me tornei sedentária. É o fim! Verdade, pra mim o exercício também é uma terapia, eu preciso! E sabe aquelas frescurinhas femininas, pois é, a única coisa que dava tempo de fazer era ir à manicure (pelo menos isso, o básico). Gente, tenho 34 anos, aquilo não podia mais ficar assim. Eu tinha que reagir. Voltei a fazer drenagem linfática, iniciei acupuntura, comecei a fazer tratamento com um aparelho que quebra gorduras chamado Heccus (é a primeira vez que entro numa clínica de estética. Se não der certo, pelo menos estou me sentindo uma dondoca e estou "me" sentindo). Pra recomeçar os exercícios, estou caminhando enquanto não me organizo o suficiente para entrar numa academia. Tem uma aqui perto cheia de aulas interessantes: Body Pump, Body Balance, Body Jump, Body um monte de coisa. 


Como não parei de trabalhar eu acabei deixando o blog de lado, mas morri de saudades e estou de volta! Espero que vocês me perdoem....

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Biópsia de mama

Biópsia é a retirada de um ou mais fragmentos de tecido ou até mesmo a lesão inteira ou órgão, que será estudado por um médico patologista e fará o diagnóstico definitivo de alguma patologia.

Algumas vezes é necessário realizar uma biópsia de mama. Por exemplo, dependendo da categoria da mamografia (em post anterior), quando o médico acompanha um nódulo há um tempo e ele mudou suas características, quando o tamanho é grande ou provoca dor. A ultrassonografia fornece dados sobre o nódulo que deixam o médico tranquilo ou não, e é a partir destas características que ele sabe se há indicação para prosseguir a investigação com a biópsia. Algumas vezes a biópsia é realizada para tranquilizar a ansiedade da paciente.

Existe a biópsia excisional ou cirúrgica, quando o objetivo é retirar completamente o nódulo; existe a punção com agulha fina (PAAF) e com agulha grossa, que compreende a core biopsy e a mamotomia (vácuo).

PAAF: As punções por agulha fina podem ser realizadas pelo próprio ginecologista ou mastologista em consultório. É indicada para nódulos palpáveis. O médico utiliza uma seringa e uma agulha, palpa o nódulo e aspira seu material com a seringa. Não é dolorido e é rápido.

Core biopsy
Core biopsy: realizada por médico radiologista, em clínica de ultrassom. O exame é rapido, durando poucos minutos. A lesão não é palpável, portanto o exame é realizado guiado por ultrassom ou ressonância magnética. É administrado anestesia local. A core biopsy retira vários fragmentos da lesão com um aparelho que parece uma pistolinha e não dói, mas não se assuste com o som que emite a cada disparo. São feitos vários disparos para que sejam abordados diferentes áreas da lesão. Todo o processo é acompanhado pela imagem da ultrassonografia ou ressonância.
Consegue retirar mais tecidos que a PAAF.


Mulher sendo submetida a mamotomia
 Mamotomia: realizada por médico radiologista, em clínica de ultrassom. O exame é rapido, durando poucos minutos. A mamotomia é realizada por uma agulha grossa e um sistema a vácuo que, através de movimentos rotatórios retira material para biópsia e, dependendo do tamanho da lesão pode retirá-la por completo. É menos invazivo que a biópsia excisional. A mamotomia deixa uma pequena incisão (corte) na mama que não necessita levar pontos. Não há necessidade de repouso após o exame.





biópsia cirúrgica
Biópsia cirúrgica ou excisional: é realizada pelo ginecologista ou mastologista no hospital, sob anestesia local ou sedação. Retira-se toda a lesão e, dependendo do tamanho do nódulo, coloca-se um pequeno dreno que será retirado após. O dreno evita a formação de hematomas, muito comum em cirurgias mamárias. Se há suspeita de câncer o corte na pele deve ser o mais próximo possível do nódulo, mas quando a retirada do nódulo é devido ao seu crescimento ou dor da paciente, sem suspeita de malignidade, pode ser realizado o corte ao redor do  mamilo, isso se o nódulo não estiver longe do mamilo. O tamanho da cicatriz, geralmente é de 2 -3 cm. mas depende do tamanho do nódulo.





segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Mamografia

Mamógrafo


Mamografia é um exame que estuda as mamas à procura de alterações suspeitas de câncer de mama. Este exame é capaz de detectar o câncer precocemente, ou seja, quando ainda nem se tem nódulo. Isso aumenta as chances de cura.

A mamografia é o melhor exame para detectar precocemente o câncer, mesmo com 10% de falha.

O mamógrafo é um aparelho que emite radiação, como um raio X potente. Existe a mamografia de alta resolução e a digital. A diferença entre elas é que a digital visualiza as imagens num computador, o que permite alterar o brilho da foto, a sua magnificação, o contraste, visualizando melhor a área estudada. A de alta resolução emite as fotos num filme como uma chapa de radiografia.

O médico que faz o laudo da mamografia é um radiologista.

A mamografia deve ser realizada de rotina a partir de 40 anos de idade. Aos 35 anos a mulher pode fazer uma mamografia para servir de base comparativa com a próxima, aos 40, desde que esta seja normal.
Já mulheres com história familiar de câncer de mama, devem iniciar o rastreio de câncer com mamografia 10 anos antes da idade que o parente diagnosticou o câncer.

Mamografia e ultrassonografia mamária são indicadas para finalidades diferentes e uma pode complementar a outra. A mamografia nunca pode ser substituída pela ultrassonografia.

Quando a mamografia detecta alterações mesmo que sejam benignas, a mulher deve sempre levar os exames anteriores para que o médico possa dar o laudo com a classificação correta do exame. Essa classificação, muitas vezes é comparativa com exames anteriores para verificar alterações no comportamento das alterações diagnosticadas anteriormente. Por exemplo, quem já fez mamografia já reparou que no final do laudo vem descrito: categoria___ ou Bi rads ____ pode ser de 0 a 6. Uma alteração pode ser BIRADS 3 por ser recente naquela paciente. Se, com o passar dos anos ela se mantiver estável, pode cair para BIRADS 2. A diferença é que Bi rads 3 merece acompanhamento semestral por mamografia e bi rads 2, anual. Outra coisa, um bi rads 2 pode passar a ser bi rads 3 pela ausência do histórico da mulher. Por isso, não façam como uma paciente minha que não levou os exames anteriores porque achava que ia dar "cola" para o médico que daria o laudo. ok?

Mais uma coisa, quem estuda as mamas à procura de nódulos é a Ultrassonografia, independente da idade. É este exame quem faz a diferença de nódulo sólido para nódulo cístico e mede o tamanho das nodulações, descreve suas características... dependendo do resultado da ultrassonografia, faz-se a mamografia para estudar o nódulo encontrado na ultrassonografia. Essa é mais uma indicação da mamografia além do rastreio de rotina para o câncer de mama. Tem mulheres que necessitam fazer mamografia e ultrassonografia rotineiramente. Em alguns casos é necessário realizar ressonância magnética das mamas.

Quem tem próteses de silicone nas mamas pode realizar mamografia normalmente, mas em alguns casos será necessário também a ressonância magnética.

A mamografia não é um exame adequado para as jovens devido à quantidade de glândulas nessas mamas. por isso a rotina começa mais tarde. E por ter muitas falhas nas mamas jovens é que, quando uma paciente jovem tem câncer de mama (ainda bem que é raro) geralmente a doença está mais avançada.

A mamografia não deve ser realizada em gestantes devido à alta radiação emitida no exame.

A maioria das mulheres se queixa de dor devido à compressão das mamas para realizar o exame. Pior para quem tem mais peito, porque a compressão deve ser maior. A dor também acontece mais nas mamas mais jovens, com mais glândulas. Com a substituição fisiológica das glândulas para gordura, que ocorre com a idade, a dor é amenizada.

O ideal é que a mulher que ainda menstrua realize o exame logo após a menstruação porque provoca menos dor  e a qualidade do exame é melhor. Também é recomendado que não se utilize desodorantes, perfumes ou cremes nas mamas e axilas para realizar o exame. Além disso, a paciente deve levar os exames anteriores para comparação com o atual. Algumas vezes será solicitada a ultrassonografia das mamas para complementar a mamografia.

Ao contrário do que muita gente pensa, as biópsias só devem ser realizadas quando realmente há indicação, pois elas provocam cicatrizes no tecido mamário que podem atrapalhar uma futura investigação.

Significado da classificação Bi rads:

0 = sem resultado. Necessário complementar com USG de mama (quando a mamografia viu alguma coisa que não entendeu o que é. Pode ser um nódulo, ou só uma glândula, um linfonodo... por isso precisa da USG para identificar  o que é e, depois refazer a classificação). O ideal é que a mulher que acompanha um nódulo e vai fazer mamografia leve a ultrassonografia no dia do exame. Assim o radiologista que iria dar classificação 0 consegue dar classificação adequada ao receber o auxílio da ultra.

1 = exame normal
2 = alterações benignas
3 = achados provavelmente benignos. Deve repetir o exame em 6 meses. Algumas vezes é indicado a biópsia
4 = alterações suspeitas. Pode ser 4A, 4B ou 4C, em ordem crescente de suspeição. A biópsia deve ser avaliada de acordo com o caso
5 = alta suspeita de malignidade (câncer).
6 = já existe diagnóstico de câncer.









domingo, 7 de agosto de 2011

Anovulação crônica e Metformina

Mais uma vez atendendo a pedidos... uma leitora me pediu um post sobre o uso de Metformina no tratamento da anovulação crônica. Espero ajudar :)

A síndrome de ovários policísticos (SOP), como já escrevi em post anterior, caracteriza-se por hiperandrogenismo (excesso de hormônios masculinos) e anovulação crônica. Clinicamente observamos menstruações com intervalos longos, acne, hirsutismo (pelos em regões incomuns às mulheres), seborréia, ganho de peso...e é muito comum a associação com resistência insulínica, ou seja, níveis elevados de insulina no sangue. Só para lembrar a vocês, o diagnóstico de SOP é clínico e não através de ultrassonografia e exames laboratoriais.

A SOP pode atrapalhar a fertilidade. O quadro é pior ainda quando se tem resistência insulínica. A droga mais utilizada para induzir a ovulação nos casos de anovulação crônica é o Citrato de Clomifeno. Porém, a metformina isolada pode fazer a mulher ovular, mas volto a falar que deve ser usada para quem tem resistência insulínica ou obesidade. A associação de clomifeno com metformina apresenta bons resultados na indução da ovulação nestes casos. O que não podemos esquecer é que somente a redução do peso já é capaz de fazer a mulher ovular normalmente e faz parte do tratamento de quem tem SOP. Usar medicamentos e não perder peso não é eficaz em boa parte dos casos.

A metformina é uma droga usada no tratamento do Diabetes tipo 2 e em pacientes com Resistência Insulínica. É uma biguanida. Ela promove diminuição de produção de glicose pelo fígado e maior sensibilidade à insulina. Também ajuda no metabolismo de gorduras e açúcar.

Os efeitos colaterais mais comuns são os que envolvem o sistema digestivo, como gases, náuseas, qualquer alteração intestinal.

Estão estudando o uso de Metformina durante a gestação, mas enquanto não há conclusão à respeito, ela já é utilizada na paciente com anovulação crônica acima do peso ou com diagnóstico de Resistência Insulínica.

A metformina pode ser encontrada nas farmácias populares gratuitamente! Para isso, é necessário a receita prescrita pelo seu médico.

sábado, 6 de agosto de 2011

A gestação e o tipo sanguíneo

Hemácias

Se todo mundo tivesse o mesmo tipo sanguíneo a vida seria mais simples...
Mas não é! Vocês sabem que existe sangue A, B, AB e O. Além disso ainda existe o sistema Rh positivo e o negativo. O grupo O é o doador universal. Todos as pessoas de qualquer tipo sanguíneo podem receber sangue tipo O. O tipo AB é o receptor universal (eu faço parte desse grupo, que bom! Mas espero nunca precisar dessa vantagem), ou seja, pode receber sangue de qualquer pessoa. Pessoas do grupo A só podem receber sangue O ou A, as do tipo B só recebem O ou B. Mas... o sistema Rh é independente disso tudo.

O que importa para a obstetrícia é o seguinte: existe a incompatibilidade ABO, quando a mãe tem tipo sanguíneo O e o bebê nasce A ou B. E a Incompatibilidade Rh, que ocorre quando a mãe é Rh NEGATIVO e o feto é Rh POSITIVO.

Na ABO, o sangue da mãe tem anticorpos contra o grupo A e B. Esses anticorpos atravessam a placenta e podem chegar à circulação fetal e destruir suas hemácias A e B. Essa destruição pode levar à anemia do feto e icterícia ao nascimento. Calma, o que observamos na prática é a ocorrência de icterícia (o bebê fica amarelinho), que nem acontece na maioria dos casos e é, na grande maioria das vezes, tratada com sucesso.

Curiosidade: no Brasil a maior parte das pessoas tem tipo sanguíneo O + (36%), seguido por A+(34%), depois O- (9%). Oito por cento das pessoas tem sangue A- e B+. AB+ = 2.5% da população. B- = 2% e AB- = 0.5%.

Incompatibilidade Rh: 5 a cada 1000 mulheres apresentam isoimunização materna. Ocorre quando a mulher for Rh negativo e o embrião ou feto for Rh positivo e o sangue deste atingir a circulação materna. Quando isso acontece desenvolve-se uma sensibilização materna que produz uma imunoglobulina que pode atravessar a placenta e atingir o feto. O próximo passo é haver destruição das hemácias fetais e, consequentemente, anemia fetal, alterações do fígado, do baço, insuficiência cardíaca e outras alterações como ascite, icterícia e hidropsia fetal, até o óbito, se nada for feito para evitar essa progressão. Essas alterações fetais são diagnosticadas por ultrassonografia, e acontecem a partir do terceiro trimestre de gestação.
Hidropsia fetal é o acúmulo de líquido no feto, como edema de alguns tecidos, derrame pericárdico, ascite e derrame pleural.
Vou tentar simplificar:
Depois do primeiro parto ou aborto, o sangue da mãe entra em contato com o sangue do feto e cria anticorpos contra o Rh do feto. Durante uma segunda gravidez estes anticorpos podem atravessar a placenta e  provocar a destruição das hemácias do sangue da criança (hemólise). A partir daí uma série de complicações na saúde do feto começam a surgir e pode levá-lo ao óbito.

Isoimunização materna pelo fator Rh. Como fazer para evitar o quadro? 

A gestante com Rh negativo e parceiro Rh positivo pode ter filho Rh positivo ou não. Então essa mulher deve realizar um exame de sangue chamado Coombs indireto, logo no início da gravidez. Se der negativo, tudo bem, não está sensibilizada. Se der positivo está sensibilizada.
Anemia hemolítica do recém-nascido = eritroblastose fetal.

Gestante não-sensibilizada (graças à Deus, a maioria dos casos): é possível descobrir o tipo de sangue fetal através de um exame de sangue que detecta DNA fetal na circulação materna. Quando se opta por não realizar o exame fetal ou quando este não é possível, repete-se o Coombs indireto outras vezes na gestação enquanto tiver resultado negativo.
Caso a paciente apresentar sangramentos, ou for submetida a qualquer procedimento invasivo, deve ser administrado uma vacina chamada Rhogam ou Mathergan, que contém imunoglobulina anti-Rh, por volta de 28-30 semanas de gestação.
Outra indicação para a vacina nesta época é quando a mulher relata abortos anteriores (que não se sabe o tipo sanguíneo do feto e o parceiro era Rh positivo) ou deu à luz a feto Rh positivo e não recebeu vacina anti Rh no pós-parto. Isso é mais comum quando a mãe Rh negativo teve o parto em casa ou na rua e não foi  para maternidade ou não recebeu orientação médica de que deveria se vacinar.
Quando a gestante não recebe a vacina na gestação, receberá a dose até 72h após o parto se o resultado do sangue do feto for Rh positivo com Coombs direto negativo. Isso é rotina em qualquer maternidade, pública ou privada.
O tipo sanguíneo do bebe é conhecido através do exame de sangue do cordão umbilical ao nascimento. Isso acontece em todos os nascimentos, independente de qualquer coisa. E, quando a mãe não faz pré-natal e não tem exame comprovando seu tipo sanguíneo também realiza este exame na maternidade. Por isso, não se preocupem, isso é feito de rotina.

Gestante Sensibilizada. Quando o Coombs indireto der positivo, avalia-se a gravidade do quadro, assim: leve, se a titulação for até 1/8, moderado até 1/128 e grave se acima de 1/256. Nesses casos a gestante passa por exames como o estudo da velocidade sanguínea na artéria cerebral média fetal, visto ao ultrassom com doppler. Esse exame pode detectar anemia fetal. Outro exame é o índice cardiofemural, que detecta insuficiência cardíaca inicial e anemia. Com estes exames alterados deve ser realizado outro exame chamado cordocentese para saber o grau de anemia fetal e decidir se há necessidade de transfusão sanguínea intra-útero nas gestações abaixo de 34 semanas. Nas gestações mais avançadas, o tratamento será neonatal (após o nascimento), que será adiantado.

Observações importantes:
Muitas vezes não se sabe qual o Rh do pai do bebê. Não há problema, porque quando o bebê nascer será submetido ao exame de qualquer forma. Se o bebê for positivo a mãe toma vacina. Quado não se sabe o sangue paterno, tratamos a gestação como se o feto fosse Rh positivo.

Se o pai também for Rh negativo, o bebê também será, logo, nada vai acontecer. Sem possibilidade de haver isoimunização e anemia hemolítica do recém-nascido.

O objetivo da mãe tomar a vacina no pós-parto é para evitar isoimunização numa futura gestação.

É muito importante que as mulheres Rh negativo submetidas a abortos espontâneos ou não, recebam a vacina.

Nas gestantes Rh negativo, sem sangramentos, ou história de falta de vacinação em gestação anterior, sem saber o tipo sanguíneo do feto atual, pode ser administrado a vacina na gestação ou não. A maioria dos obstetras deixam para vacinar ao nascimento. Mas quando tiver a história de sangramentos, abortos com parceiro Rh positivo, tipo sanguíneo fetal intra-útero positivo com coombs direto negativo, a conduta é vacinar na gestação.

Na primeira gravidez a sensibilização é muito pequena e não atinge o feto, por isso a maior preocupação é a partir da segunda gestação.

Já que estou falando de tipo sanguíneo e gravidez, veja:

Pais com sangue O: só podem ter filhos O
Pais com sangue A: podem ter filhos O ou A
Pais com sangue B: podem ter filhos O ou B
Pais AB: podem ter filhos A, B e AB
O com A: podem ter filhos O ou A
O com B: filhos O ou B
O com AB: filhos A ou B
A com B: filhos O, A, B e AB
A com AB: filhos A, B e AB
B com AB: filhos A, B e AB

obs: é raro, mas pode haver o falso O, portanto, se um dos pais for O com o outro B, por exemplo, e tiver filho A ou AB, o que seria impossível, pesquise o fenótipo de Bombaim, pois o que tem grupo O pode ser um falso O e ser, na verdade, A. Mas isso é muito raro!

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Colposcopia



Colposcopia é um exame capaz de visualizar alterações no colo do útero, permitindo sua biópsia para diagnóstico definitivo de lesões provocadas por HPV. No momento da colposcopia a parede vaginal e vulva também podem ser examinadas (vaginoscopia e vulvoscopia).

A Colposcopia é um exame realizado quando há alterações na colpocitologia oncótica (conhecido como "preventivo") ou quando o ginecologista detecta alterações no colo durante o exame clínico (especular), mesmo com resultado normal no preventivo. (ver post sobre HPV e preventivo)

É um exame realizado em consultório e não dói.

A mulher não deve estar menstruada e não deve ter relações sexuais 48 horas antes do exame, nem usar cremes vaginais nos 5 dias anteriores. Também não se recomenda usar duchas vaginais. (aliás, ninguém deve ter o hábito de usar duchas vaginais para nada).

Para sua realização o ginecologista utiliza o aparelho chamado Colposcópio, que tem duas lentes de aumento com ajustes, como um microscópio, que é capaz de visualizar lesões de forma ampliada, não detectadas a olho nú. Isso é possível porque a lesão se destaca quando recebe uma espécie de corante.

Colposcópio
Video-Colposcópio

Após a introdução do espéculo vaginal (bico de pato) o médico molha o colo com solução de ácido acético e o examina através das lentes do colposcópio. Em seguida ele coloca uma solução (Lugol) amarronzada que contem iodo, e novamente examina o colo pelo colposcópio. Se o colo ficar igualmente corado de marrom, significa ausência de lesões. A área que não se corar corresponde à lesão e deve ser biopsiada devido à suspeita se ser lesão pré-cancerígena. Para realizar a biópsia é administrada anestesia local.

A biópsia pode ser pequena ou extensa, depende da lesão, e pode realizada no momento da colposcopia ou através de cirurgia, tudo depende da extensão da lesão e localização. Muitas vezes o médico consegue retirar toda a lesão e o resultado do estudo desse material indica que a lesão tinha margens livres, ou seja, foi realizado o diagnóstico e o tratamento ao mesmo tempo. Porém nem sempre isso é possível.

O exame não demora e, em casos de biópisia é recomendado repouso no dia e abstinência sexual por 1 semana.

A biópsia pode ser realizada através de pinças especiais (saca-bocado) ou cureta de Novak (quando a lesão está na entrada do útero, canal cervical), mas é muito frequente o uso de eletrocautério, que corta e cauteriza ao mesmo tempo. Algumas vezes é necessária a colocação de um tampão vaginal para evitar sangramentos. A própria paciente pode retirar o tampão algumas horas depois.

Cureta de Novak


Alça p/ biópsia por eletrocautério


biópsia do colo





Colo do útero
Acima: lesão (branca) após colocação do ácido acético.
Abaixo: a área que não se corou com o lugol (Teste de Schiller positivo)
corresponde à lesão que deve ser biopsiada



Finalizando, para o diagnóstico de certeza de lesões no colo do útero, provocadas por HPV, precursoras do câncer de colo), faz-se a colposcopia com biópsia. Mas este exame é indicado quando o preventivo mostra alterações relacionadas ao HPV ou a lesão é vista pelo ginecologista durante o exame clínico (especular)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Pílulas!



Ontem uma leitora deixou uma pergunta sobre anticoncepcional na gestação. Respondido, mas me dei conta que já trouxe temas de contracepção não-hormonal e outros contraceptivos hormonais (anel vaginal, adesivo, injeção, implante e SIU), mas ainda não escrevi exclusivamente sobre as pílulas!
Por isso vou dedicar este post ao anticoncepcional mais conhecido e usado no mundo todo: a pílula!

Quando a pílula foi inventada era para tratar hemorragias, sangramento uterinos anormais. Bem, isso era o que estava escrito na bula, na verdade, era mesmo para dar à mulher o direito de planejar sua gestação. Mas... naquela época, por questões sociais, políticas e religiosas, a mulher não podia ter esse direito. Ainda bem que estamos em 2011.

A pílula veio passando por mudanças ao longo dos anos, tanto na dose quanto na composição de hormônios utilizados. Quando ela começou a ser muito popularizada, há uns 30 anos, ela era formada pelo estrogênio "etinil estradiol" e pelo progestogênio "levonorgestrel". A dose de estrogênio era de 50 microgramas. Mais baixa em relação ao surgimento da pílula, mas hoje em dia há pílulas com 15 microgramas e o melhor, sem perder a eficácia e com menos risco do que mais nos preocupamos: a trombose.

Até chegar ao Brasil a Qlaira, (já falei sobre ela, composta por valerato de estradiol e dienogest), só existiam pílulas com etinil estradiol em várias dosagens: 35, 30, 20 e 15 mcg (pílulas com 35, 30 ou 20 mcg são consideradas de baixa dose, já as com 15 mcg são de ultra baixa dose) e vários outros progestogênios, são eles: ciproterona, desogestrel, gestodeno, drospirenona, clormadinona. Essa variedade de doses e hormônios nos ajuda a encontrar o melhor anticoncepcional para cada mulher. Na Europa e EUA, existem também, outras composições com progestogênios diferentes.

Benefícios e contra-indicações:
Como disse anteriormente, a pílula era para tratar sangramentos e evitar gravidez. Hoje em dia é utilizada para tratar cólicas, TPM, síndrome dos ovários policísticos, acne, fazer acompanhamento clínico de alguns miomas, tratar alguns cistos ovarianos, prevenir e tratar problemas relacionados ao mau funcionamento ovariano, além de sagramentos anormais e evitar gravidez. Outra característica da pílula é que ela protege contra o câncer de ovário e endométrio e contra as doenças benignas da mama. Quanto ao câncer de mama, é controverso. Algumas literaturas dizem que podem aumentar o risco, porém não observamos isso no dia-a-dia. O fato é que se a usuária de anticoncepcional inicia uma investigação de tumor suspeito de câncer deve interromper seu uso até que o diagnóstico tenha afastado câncer. A mulher com Hipertensão controlada pode usar anticoncepcional, assim como a diabética, quem tem epilepsia, nódulos sólidos e cistos nas mamas, miomas, cistos ovarianos, distúrbios na tireoide, hepatite fora da fase aguda, anemia falciforme e talassemia. Já as fumantes, mulheres com passado de trombose, mulheres que estão amamentando, devem usar pílulas só com progestogênio e as únicas opções no mercado brasileiro são Cerazette e Kelly. O Lupus é considerado categoria 3, ou seja, os riscos geralmente se sobrepõem às vantagens do uso do método.

Os efeitos indesejáveis mais comuns das pílulas são: náuseas, enxaqueca, dor nas mamas e inchaço. Na maioria das vezes esses efeitos duram só o período de adaptação quando se inicia a pílula, que pode variar de 2 a 3 meses e regridem espontaneamente. Não é incomum, também, nesse período surgir sangramentos irregulares, fora da menstruação, os chamados escapes ou spotting. Se os efeitos persistirem, vale ver o risco x benefício e tentar uma nova pílula. O ganho de peso tão temido não consegue encontrar evidências na prática. Às vezes eu recebo uma paciente se queixando de ter perdido muito peso depois que iniciou a pílula e uma outra paciente dizendo que ganhou muito peso com a mesma pílula. A gente só sabe se você vai se adaptar bem ou não depois que começa a usar. Além disso, nunca inicie uma pílula sem consultar seu médico, seguindo orientações das amigas, pois existem contra-indicações e a melhor pílula para ela pode ser a pior para você.

Tem pílula para todas (ou quase todas) as necessidades. Quando um ginecologista prescreve uma pílula ele leva em conta qual efeito além contracepção ele pretende obter para cada paciente, escolhe a dose e o hormônio a ser utilizado. Durante a consulta ele visa, também, detectar qualquer contra-indicação ao método, que pode ser relativa ou absoluta. Para isso existe um manual de Critérios de Elegibilidade, da OMS (organização mundial de saúde).

Para terminar, vou dar alguns exemplos das pílulas mais usadas no Brasil. Existem pílulas lá fora que não chegaram aqui, e algumas que usamos aqui tem o mesmo nome lá. Descobri algumas outras que são semelhantes às nossas, vejam:

para facilitar, legenda: EE = etinil estradiol; Levo = levonorgestrel; Deso = Desogestrel; Gest = Gestodeno; Drosp = Drospirenona ; Cipro = ciproterona; Clor = Clormadinona; Nor = norgestrel; Dien = Dienogest

ATENÇÃO! não há nenhum conflito de interesse! Coloquei as pílulas que lembrei, mas há cerca de 100 pílulas no mercado, não dá para lembrar de todas... :)
Não comparem dose de diferentes progesteronas.

E.E  50 mcg + Levo 25= Evanor, Neovlar.
E.E 30 + Levo 15 = Nordette, Microvlar, Ciclo 21, Levordiol
E.E 20 + Levo 10 = Level, Miranova


E.E 20 + Deso 150 = Primera 20, Minian, Mercilon, Femina, Malu
E.E 30 + Deso 150 = Primera 30, Microdiol


E.E 15 +Gest 60 = Siblima, Alexa, Minesse, Mirelle, Mínima (28cp), Adoless (28cp)
E.E. 15 + Gest 75 = Tantin (28cp)
E.E 20 + Gest 75 = Harmonet, Ginesse, Alestra 20, Femiane, Diminut, Micropil, Tamisa 20, Gestrelan
E.E 30 + Gest 75 = Alestra 30, Fertnon, Gestinol 28, Gynera, Minulet, Tamisa 30


E.E 30 + Drosp 3 = Yasmin, Elani ciclo, Elani 28 (28cp)
E.E 20 + Drosp 3 = Yaz, Iumi


E.E 35 + Cipro 2 = Diane 35, Diclin, Selene, Ferane 35, Arthemidis


E.E 30 + Clor 2 = Bellara


E.E 35 + Deso 50/E.E 30 + Deso 100/E.E 30 + Deso 150 = Novial
E.E 40 + Deso 25/E.E 30 + Deso 125 = Gracial
E.E 30 + Levo/E.E 40 + Levo/ E.E 30+Levo 125 = Triquilar. Trinordiol
E.E 50 + Norgestrel = Anfertil, Primovlar
E.E 20+Deso 150_E.E 10= Mercilon conti
V.E + Dien = Qlaira


Deso 75 = Cerazette, Kelly
Noretisterona 35 = Micronor
Levo 30=Nortrel


O que eu descobri? 
Yasmin é conhecido na Europa como Yasmim, mas também tem a versão dele com 28 comprimidos, a Ocella e o Yasmim 28. Também existe o Zarah, o Safyral.  
O Nordette pode ser encontrado como Levora, nos EUA, Microgynon e Ovranete, na Inglaterra
A versão para o Primera 30 e Microdiol chama-se Marvelon na Inglaterra, Desogen, nos EUA
O diane 35 é encontrado como Dianette
O Yaz é Yaz mesmo, mas existe o Be Yaz (que vem com cálcio e ácido fólico) e o Yasminelle, nos EUA
Qlaira é Qlaira
As pílulas como a Adoless, podem ser encontradas como Melodene na Espanha
Minulet = Femodene
Cerazette = cerazette.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Posts esclarecedores

Hoje vim anunciar a vocês uma sequência de posts sobre exames e tratamentos (inclusive cirurgias) que são solicitados pelo ginecologista e obstetra. Falar sobre o que é determinado exame, quem o realiza, onde é feito, mostrar imagens, se há necessidade de algum preparo, quando realizar, estas coisas. 

Por que tive essa idéia, agora??

Nós médicos indicamos vários exames e procedimentos e achamos tudo tão natural que esquecemos que a nossa paciente pode não fazer a menor idéia do que estamos falando ou não entenderem nada do que explicamos sobre o tal exame. Às vezes eu fico surpresa porque hoje em dia todo mundo procura tudo no Google, mas ainda assim, vejo que cabe a nós mesmos passarmos algumas informações, porque nós somos os profissionais e sabemos as razões pelas quais aquele exame deve ser feito, mesmo porque as informações da internet não são muito confiáveis, seja porque estão geralmente erradas (o que é muito comum) ou porque o paciente busca outro tipo de informação e desconhece algumas coisas que, para nós, são básicas.  
Conversando com as pessoas eu estou sempre descobrindo que alguns pacientes tem um conhecimento "um pouco distorcido da verdade". Isso no que diz respeito às coisas do dia-a-dia do médico, imaginem em relação aos exames e procedimentos que solicitamos!

Esclarecendo algumas coisinhas
Tem gente que não sabe que a pessoa que realiza o exame de ultrassonografia é médica (acha que é um técnico). Outras não sabem que, numa cirurgia, operam o cirurgião e o auxiliar (que pode ser mais de um), ambos são médicos, a diferença é que o cirurgião é o responsável por aquela cirurgia. Quando a cirurgia for de uma paciente do auxiliar, este se torna cirurgião e o que foi cirurgião se torna auxiliar. Tem gente que não sabe a importância e responsabilidade de um(a) instrumentador(a). Muitas pessoas dizem fizeram uma cesariana para retirar um tumor no ovário. Outras acham que miomas se mexem e matam os bebês. Me perguntam pra onde vai o sangue da menstruação quando não menstruam, e até já atendi mulher em emergência desesperada porque perdeu a camisinha no canal vaginal e achava que ela poderia ir parar no abdome. Esse atendimento foi realizado num hospital de alto nível aqui no Rio. Gente,  são fatos verdadeiros, sem separar nível social e intelectual. Eu não posso achar que uma coisa básica para mim é básica para todos. A minha área é essa. Agora, quando eu sou a cliente na frente de um outro tipo de profissional eu posso desconhecer um monte de coisas que são básicas para eles. 

Para terminar, um conceito que muita gente também confunde: o médico pode se especializar em obstetrícia e em ginecologia ou só em obstetrícia ou só ginecologia. O obstetra cuida da saúde da mulher no período gestacional e pós-parto. O ginecologista cuida da mulher nas outras fases. O ginecologista só faz parto se ele for, também, obstetra. O ginecologista faz tratamentos clínicos e outras cirurgias como correções de prolapsos genitais, cirurgias por miomas, tumores ovarianos, cura de incontinência urinária, enfim, cirurgias nos órgãos pélvicos internos, na região perineal e também nas mamas.

Para terminar II, se quiserem, deixem suas dúvidas nos "comentários". Com certeza sua dúvida é a mesma de muita gente.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Video-Laparoscopia

Em post anterior eu falei um pouco sobre histeroscopia. Continuando no assunto sobre Endoscopia Ginecológica, vou falar agora um pouquinho desta cirurgia, também minimamente invasiva chamada Video-Laparoscopia.
Ao invés de fazer um corte horizontal ou vertical (dependendo do caso)  no seu abdome, o médico consegue operar os órgãos internos da pelve através de pequenos orifícios na parede abdominal. Na maioria das cirurgias ginecológicas através desta técnica são feitos 3 ou 4 furinhos, sendo um deles dentro da cicatriz umbilical. Esta cirurgia proporciona melhor recuperação, menos dor, melhor estética, maior precisão ao operar estruturas delicadas, menos sangramento, menos complicações. "um corte grande no abdome gera mais dor que vários furinhos" diz a literatura, em outras palavras.
Com o instrumental disponível hoje em dia e o avanço nas técnicas cirúrgicas já é possível operar todos os órgãos abdominais pela videolaparoscopia. Poucas são as limitações. Há alguns anos não se imaginava operar um útero grande por laparoscopia, mas hoje esse conceito mudou graças à tecnologia. 
Assim como nos procedimentos video-histeroscópicos, é necessário treinamento de toda a equipe (cirurgiões, instrumentador) e equipamentos específicos (e caros) de uso permanente e descartáveis.  
Um armário com monitor, fonte de luz, aparelho para infusão e controle do gás (usado para distender a cavidade abdominal), câmera, aparelhos de documentação são indispensáveis, além da óptica e pinças especiais para a realização deste tipo de cirurgia. A paciente "beneficiada" por esta cirurgia nem imagina toda a aparelhagem que está por trás disso tudo. 
Por video-laparoscopia, o ginecologista é capaz de operar cistos/tumores nos ovários, trompas, realizar miomectomias (retirada de miomas), histerectomia (retirada do útero), tratamento de endometriose, lise de aderências, ligadura das trompas, correção de prolapsos genitais, correção de incontinência urinária. É possível fazer tudo que se faz numa cirurgia aberta, inclusive dar pontos nos órgãos. E tudo isso com uma visibilidade muito maior que a lente de aumento e fonte de luz proporcionam.

Esta cirurgia traz muitos benefícios aos pacientes, mas também pode ter complicações como em qualquer cirurgia, porém, são raras e dependem do grau de complexidade do procedimento. É claro que uma laparoscopia para tratar endometriose avançada, com múltiplas aderências e comprometimento de outros órgãos como o intestino ou a bexiga, estão mais expostos às complicações que uma cirurgia nas trompas. Uma histerectomia com útero apresentando muitas aderências é mais arriscada que a histerectomia de útero livre. Porém, em técnica aberta, estas complicações podem ser maiores. 

Ainda há espaço para as técnicas abertas, sempre haverá. Importante é o médico conhecer as contra-indicações, as limitações da técnica e as suas próprias limitações. Dependendo do procedimento a melhor técnica é aquela que o cirurgião tem maior intimidade em realizar. Exemplo: a retirada do útero pode ser feita por meio da laparotomia (barriga aberta), laparoscopia (furinhos no abdome) ou por via vaginal. Dependendo do caso, qualquer um destes meios está indicado. A recuperação da cirurgia vaginal também é excelente. neste caso é a experiência do cirurgião que indicará a via de escolha. 

foto do site "oncologiahoy". cirurgia laparoscópica




E agora, depois que o nosso cérebro se acostumou com a coordenação das mãos que não tocam diretamente nos órgãos e os olhos voltados para o monitor, inventam uma nova técnica, SINGLE PORT, que faz tudo isso através de um mesmo furo! Um novo treinamento cerebral se inicia e mais investimentos $$ em instrumentais adequados é = a mais benefícios para os pacientes. Ao ser apresentada à técnica pela primeira vez achei estranho fazer tudo por um furo só. Qual o tamanho deste furo? Quando vi o Trocater (instrumento com válvulas que dá a passagem das pinças para dentro do abdome) desta cirurgia, tomei um susto, pensei que fosse abrir uma cratera no umbigo, mas vendo com detalhes, entendi que estava enganada. Por isso coloquei um videozinho retirado do You Tube que mostra a introdução das pinças no abdome pela técnica Singue Port.


No dia 06 estarei num curso sobre este assunto. Depois conto para vocês como foi a experiência, tá? Já estou sentindo uma câimbra nos meus neurônios...